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Chegou a hora de
uma agricultura
baseada em plantas
Maribeth Abrams-McHenry
Este artigo não procura
desencorajar vegetarianos e vegans na promoção de alimentos orgânicos, pois
o cultivo por meios
químicos é prejudicial
à Terra, aos animais e à nossa saúde.
Existem, porém, passos
que vão além da cultura orgânica tradicional, mais compatíveis com os
conceitos vegetarianos.
As
pilhas de composto e os canteiros na fazenda de Will Bonsall indicam que
ele se dedica à agricultura orgânica. Porém, uma observação mais cuidadosa
revela não apenas a falta de sacas de fertilizantes químicos, mas também a
ausência de qualquer adubo animal. Nos últimos 20 anos, Bonsall tem se
dedicado ao cultivo vegan, um termo (e método) desconhecido até para muitos
vegetarianos. Bonsall avançou ainda mais no cultivo orgânico evitando o uso
de subprodutos de origem animal.
Por
que os agricultores orgânicos utilizam fertilizantes de origem animal, como
estrume e subprodutos do abatedouro? Esses produtos têm valor fertilizante,
pois contêm nutrientes essenciais como nitrogênio, fósforo e potássio e a
matéria orgânica do estrume ajuda a melhorar a estrutura do solo. Esse tipo
de fertilizante sempre esteve disponível nas comunidades rurais a custo
baixo ou zero e agricultores que também criam animais têm seu próprio
esterco em
abundância. Horticultores e agricultores orgânicos
consideram a decomposição de produtos animais um componente natural do
processo orgânico.
Embora
agricultores orgânicos sejam encorajados a obter estrume em "fazendas
orgânicas", isso não é requisito para obter o certificado de produtor
orgânico. Os horticultores, às vezes, conseguem obter adubo orgânico quando
residem em áreas rurais, mas muitos compram adubo de animais criados em
confinamento não orgânico.
O
aumento explosivo da criação de gado em confinamento tem provocado um
aumento paralelo de dejetos de origem animal e esse excesso constitui um
grande problema. Nos Estados Unidos, o gado produz 105 toneladas de estrume
por segundo e o nitrogênio desses dejetos é convertido em amônia e nitratos
que se infiltram na água de superfície e subterrânea, contaminando poços,
rios e cursos d'água.
"O fazendeiro que cria animais em
confinamento tem uma quantidade enorme de estrume da qual precisa se livrar
e ele deveria arcar com todos os custos relacionados à poluição do solo, da
água e do ar", diz Scheps. "Se essas despesas forem pesadas,
talvez ele se dedique a algo menos prejudicial para o meio ambiente como,
por exemplo, cultivar couve" afirma.
E o
que dizer do estrume da vaca que vive em um estábulo tradicional? Para que
uma fazenda de gado leiteiro seja comercialmente viável, precisa manter
muitos animais em um espaço limitado e, portanto, terá problemas com o
estrume. Embora as condições não sejam tão ruins como no confinamento, as
vacas leiteiras são forçadas a manter os ciclos de gravidez / lactação e os
bezerros machos são geralmente vendidos aos produtores de carne de vitela
logo após o nascimento. Quando não são mais consideradas produtivas, a
maioria das vacas leiteiras é abatida para que sua carne e couro sejam
aproveitados. Quando usamos estrume dessas fazendas, ajudamos a explorar os
animais.
Mas, como obter nitrogênio?
A
primeira pergunta que muitos fazem quando querem fazer horticultura sem
produtos animais é "Como
podemos compensar a falta de estrume?" Isso corresponde a
perguntar a um vegetariano como ele obtém proteínas em quantidade
suficiente.
Fazer a pergunta "como
compensar" significa inferir que os produtos animais como
comida ou fertilizante são o que há de melhor. Os vegetarianos sabem que
são muitas as razões pelas quais a alimentação baseada em vegetais é
superior à alimentação a base de carne e, para os vegans, os motivos éticos
são óbvios. Muitos, porém, desconhecem todos os outros benefícios da
adubação usando somente plantas.
Fertilidade e uso da terra
A
fertilidade do solo não vem dos animais, vem das plantas na base da cadeia
alimentar. A nutrição humana também não tem origem animal. Quando uma
pessoa come carne, obtém nutrientes daquilo que serviu de alimento para o
animal. Obter nutrientes dessa forma não só é nocivo à saúde, como também
constitui uma maneira ineficiente de utilizar energia e recursos. A carne,
por exemplo, não contém nada das fibras que o animal comeu e seu teor de
proteína é elevado demais. Da mesma forma, quando o capim é
"filtrado" através de uma vaca, quase todo o nitrog ênio é
perdido pela urina.
Se
colocarmos o capim destinado a alimentar uma vaca diretamente na pilha de
composto, obtemos todo o nitrogênio necessário, além de outros nutrientes
que não são encontrados no estrume. Usando o capim, vamos obter mais
matéria orgânica do que com o estrume e, portanto, mais fertilizante.
Colher a fertilidade na fonte é uma maneira bem mais eficiente de obter
nutrientes.
Eliot
Coleman vem usando adubo orgânico há mais de 40 anos, sendo que nos últimos
15, usou métodos vegans. No início dos anos 90, Coleman recebeu uma verba
para pesquisar a produção em escala comercial usando composto vegetal em
vez de adubo animal. Por meio da pesquisa, Coleman determinou o número de
hectares de feno necessários para fertilizar um hectare de plantas
alimentícias. Descobriu que a relação é de um hectare para produzir o feno
por um hectare para produzir alimentos. Isto no Maine, EUA, onde o solo é
rochoso e difícil de arar.
Se
fosse usado adubo animal em vez de capim, o espaço necessário para
fertilizar aquele hectare usado para cultivar alimentos precisaria ser
quatro vezes maior — considerando o espaço para o pasto e a forragem para
os animais. A pastagem excessiva tem levado à erosão e à formação de
desertos nos quatro cantos do mundo. E a imensa quantidade de fertilizantes
e agrotóxicos, usados na produção de alimentos para os animais, acaba
poluindo águas superficiais e subterrâneas.
Agricultores
orgânicos que dependem das vacas para obter fertilizantes precisam de muito
mais terra do que aqueles que usam métodos vegans. À medida que a população
aumenta, depender de animais no cultivo vai levar à derrubada de mais
florestas e à conseqüente destruição do habitat da fauna para dar ainda
mais lugar a pastos e cultivos para animais. Mais de 25% das florestas
tropicais da América Central já foram destruídos para criar pastos para o
gado.
Mais razões para adotar métodos vegans!
O
interesse de Coleman pelo cultivo vegan não se deve ao vegetarianismo, pois
ele não é vegetariano. Seu interesse provém da praticidade de cultivar seu próprio
fertilizante e não ter que depender de fontes externas para obter adubo.
O
estrume de gado confinado muitas vezes tem preço elevado devido aos custos
de tratamento, embalagem e transporte. Não deixa de ser irônico que o
estrume seja caro, apesar do excesso! Outro motivo para o preço elevado do
estrume é a demanda crescente, porque o público vê o adubo animal como
necessário. Como o interesse em horticultura e agricultura orgânica está
aumentando, a demanda por adubo "orgânico" poderá vir a exceder a
oferta e afetar os preços atuais.
Solo equilibrado, plantas saudáveis
Muitos
agricultores acreditam que aplicar adubo em excesso pode provocar um
desequilíbrio no solo, plantas doentes e problemas com predadores. Coleman
e Scheps descobriram que adubos vegans não causam os problemas com pragas
que afetam as hortas onde empregam adubo orgânico não vegan.
"A superalimentação do solo, além
de ser um desperdício, pode ser prejudicial" escreveu o
agricultor vegan David Phillips, Ph.D. "Colocar uma camada grossa de adubo faz com a planta
o mesmo que o excesso de comida faz com o corpo humano — crescimento super
estimulado, durante certo tempo, depois o desequilíbrio que causa condições
patológicas."
O
agricultor pode optar entre controlar ou aprimorar a natureza. As pessoas
podem matar ervas daninhas com um herbicida. Entretanto, esse produto
químico também destrói os microrganismos encontrados no solo e as plantas
ficam mais suscetíveis a doenças. Para aprimorar a natureza, usamos
barreiras físicas que evitam ervas daninhas (por ex.: cobertura verde, uso
de energia solar), extirpamos as ervas daninhas ou simplesmente convivemos
com elas.
Mesmo
hortas com solo equilibrado podem ter insetos indesejáveis, mas nessas
hortas seus predadores naturais acabam aparecendo. Se nada for feito contra
os pulgões, eles atrairão as joaninhas que deles se alimentam. E, às vezes,
esses insetos podem até se tornar úteis: há um tipo de lagarta que se
alimenta das folhas da salsa, porém, mais tarde, a larva se transforma em
uma borboleta que poliniza as plantas.
As
plantas que crescem em solo equilibrado nem sempre estão livres de
imperfeições. Quando se trata de aceitar falhas, existe uma questão de
ordem econômica. Quem planta sua própria horta não se importa com alguns
furinhos na folha de alface, mas quem cultiva para fins comerciais vai
considerar essa alface imprópria para venda.
Fazer a rotação de culturas, produzir cobertura, evitar monoculturas e
produtos químicos, adicionar constantemente matéria orgânica são fatores
críticos para uma horta bem equilibrada.
Questões de saúde
O
estrume da maioria dos animais domésticos aloja doenças intestinais e
parasitárias e pode conter resíduos de antibióticos. Animais ruminantes, às
vezes, abrigam a bactéria Escherichia
coli 0157:H7 no intestino, que pode ser transmitida às pessoas
através das fezes.
Mesmo os defensores do estrume concordam que, principalmente o estrume,
cru, constitui uma ameaça à saúde e aconselham que seja manuseado com
cuidado.
O futuro do método vegan
"Hoje, o principal problema da
agricultura vegana", diz Bonsall, "é a dificuldade em encontrar
informações a respeito". No mundo inteiro, muitos
agricultores utilizam os métodos vegans (mesmo sem conhecer o termo!), mas
não há comunicação entre eles. O escritor inglês Geoffrey Rudd cunhou o
termo "vegan" há quase 50 anos e existem diversos livros sobre o
assunto, mas muitos agricultores que usam apenas fertilizantes a base de
plantas não conhecem essas obras.
Muitos vegetarianos que cultivam sua horta com certeza usam métodos vegans.
Entretanto, no mundo inteiro, é impossível encontrar esses produtos nos
supermercados, porque as pessoas os cultivam apenas para consumo próprio.
Há vinte anos era difícil encontrar produtos orgânicos, mas agora já os
vemos por toda parte, atendendo à maior procura. As coisas boas merecem que
se lute por elas. Precisamos colocá-las em prática e também informar a
população. Quem sabe, um dia, encontraremos couve e pepinos marcados com um
"V" de vegan no supermercado.
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Fonte:
Revista da NAVS
Vegetarian Voice, verão 1997 A NAVS, North American Vegetarian Society,
mantém um cadastro de agricultores vegans. Quem quiser utilizar métodos
vegans pela primeira vez, não precisar á "reinventar a roda".
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