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Guerra
contra o câncer
Arturo
Soria Puig
Periodicamente
os políticos declaram a guerra
contra o câncer
e a primeira vítima é a verdade.
Lutar seriamente contra o câncer através
da prevenção
os levaria a enfrentar potentes
interesses e até a entrar em conflito
com
os trabalhadores desinformados
das empresas afetadas.
Sinto
dizer, a guerra contra o câncer é da boca para fora.
Abrange apenas campanhas publicitárias que transmitem
a impressão de que se faz algo para frear uma doença
em expansão.
Vou explicar. Tratar um problema pelos efeitos, sem ocupar-se com
as causas, é renunciar a entendê-lo e resolvê-lo.
Por isso, o primeiro passo consiste em identificar e, se possível,
prevenir as causas. Portanto, a guerra contra o câncer deveria
apoiar-se na prevenção das causas. Mas, essa prevenção
não interessa.
Vejamos, por exemplo, a questão da perspectiva do dirigente
de uma grande multinacional farmacêutica. Como é que
ele entende essa guerra contra o câncer? Basta dizer, que
ele vai buscar a patente exclusiva para um fármaco que alivie
o câncer e — se ele conseguir a patente — quanto
mais câncer houver, melhor o negócio. Portanto, a
prevenção não será uma de suas prioridades.
Se um indivíduo patenteasse algum medicamento interessante — negando-se
a vender a patente para a multinacional — esta tentaria sufocá-lo
até que ele decida ceder, como mostra recente caso na Espanha.
E a multinacional também não vai utilizar um tratamento
sem efeitos secundários, que não pode ser patenteado — por
exemplo, determinada planta.
No The Lancet (22.2.2003) o Dr. David Horrobin, famoso
por sua atividade como docente, pesquisador e empresário,
explicou que existem muitos tratamentos não-tóxicos
para o câncer, “baseados em sólidos trabalhos
bioquímicos 'in-vitro', em experiências com animais
e em histórias clínicas bem documentadas. Esses tratamentos
nunca foram comprovados adequadamente em pesquisas bem planejadas
e a maioria nunca será. Não porque seja difícil
comprovar com clareza. As pesquisas não serão realizadas,
simplesmente porque não podem ser patenteadas ou são
difíceis de patentear. Sem a proteção de uma
patente, no clima atual, esses remédios potencialmente eficazes
nunca serão estudados, nem utilizados”.
Na guerra contra o câncer — e por motivos alheios aos
interesses do doente — nem se pesquisa uma prevenção
adequada, nem se usam todas as terapias disponíveis e nem
o Estado supre aquilo que os laboratórios não abordam.
Vamos nos colocar agora no lugar do chefe de uma grande indústria
química. Prevenir o câncer supõe, entre outras
coisas, regulamentar ou proibir o uso de determinados pesticidas,
plásticos, vernizes ou isolantes, lançados no mercado
por sua empresa. Portanto, seu interesse na prevenção
do câncer é
nulo. Aconselhado por sua assessoria de relações
públicas, ele dará, isso sim, apreciáveis
donativos para as associações que lutam contra o
câncer, a fim de que nunca critiquem os seus produtos. E,
desta forma, poderíamos prosseguir com outras tantas indústrias
(de cosméticos, energia, alimentação, automóveis
ou telecomunicações), cujos interesses estariam seriamente
afetados se a prevenção do câncer conduzisse
a limitar o consumo de seus produtos e a reduzir as emissões
poluentes.
Agora estamos em condições de entender os políticos.
Lutar seriamente contra o câncer, prevenindo-o, iria conduzir
a enfrentar poderosos interesses e entrar, além disso, em
conflito com os trabalhadores desinformados das empresas afetadas.
Por isso desviam a atenção da prevenção
para a detecção precoce, que é algo muito
diferente. Prevenir significa tomar medidas para que não
haja um tumor que precisa ser detectado. A detecção,
porém, oferece a vantagem política — mas não
sanitária — de não ferir interesses econômicos
e de abrir novos campos para negócios: mamografias, biópsias
ou exames. Assim, também, os políticos declaram de
vez em quando — para despistar — a guerra contra o
câncer.
Entretanto, como é uma guerra de mentira, o câncer
cresce. As previsões indicam que continuará
crescendo espetacularmente. Não é de se estranhar
que haja cada vez mais gente, nos mais diversos países,
que ridicularizam as associações que — para "lutar
contra o câncer" — recebem fundos daqueles que fabricam
produtos cancerígenos e se calam. Também proliferam
aqueles que vivem no
âmbito da medicina oficial, controlada pelos grandes laboratórios
e pela administração pública. Se a isso acrescentamos
os custos crescentes do serviço de saúde pública — que
em muitos países ameaçam arruinar os cofres públicos — temos
todos os ingredientes para uma mudança radical a médio prazo.
Isso requer que os cidadãos não deleguem mais a outros as guerras
que também são de sua própria competência.
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Fonte: GEA, nº 45, Inverno 2004 |
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