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Tratamento com alimentos
crus
Dra. Kirstine Nolfi
Antes
que me desse conta da importância dos alimentos crus, minha atitude era
exatamente a mesma de outros médicos — tratava dos sintomas da doença, sem
pensar na prevenção. No futuro, encontrar meios de prevenção, muito mais do
que fazemos hoje, deveria ser dever da profissão médica ao invés de tentar
curar quando já é tarde.
Adotei uma alimentação exclusivamente crua porque fiquei gravemente doente.
Tive câncer da mama. A doença, é claro, havia sido precedida de má nutrição
e maus hábitos durante doze anos de formação hospitalar.
Inicialmente, descobri um pequeno nódulo no seio direito. Cansada e sem
ânimo, não prestei muita atenção ao nódulo até cinco semanas mais tarde.
Descobri que estava do tamanho de um ovo de galinha. Havia crescido
aderindo à pele — um sinal característico do câncer. Como médica, estava
suficientemente bem informada para não querer me submeter ao tratamento
geralmente usado nesses casos. Lembrei, então, de passar para uma
alimentação 100% vegetariana crua.
Parti em busca da natureza. Vivi durante algum tempo em uma pequena ilha.
Tomava banhos de sol durante várias horas por dia, dormia em uma barraca e
tomava banhos de mar. Alimentei-me exclusivamente de frutas e hortaliças
cruas. Mais tarde, introduzi esse hábito de vida no sanatório Humlegaarden.
Após dois meses, comecei a melhorar. O nódulo foi regredindo e minhas
forças voltaram. Aparentemente, estava curada e me sentia muito bem.
Após um ano de boa saúde — persuadida pelo Dr. Hindhede — tentei voltar, a
título de experiência, a uma alimentação vegetariana que incluía 50% de
alimentos vegetais cozidos. Não deu outra. Após alguns meses, comecei a
sentir uma dor aguda no seio onde o tumor havia aderido à pele. A dor
aumentou e percebi que o câncer estava crescendo novamente. O câncer
voltara devido aos alimentos cozidos. Mais uma vez, voltei à alimentação
crua. A dor diminuiu rapidamente e eu me senti menos cansada.
Como médica, achei que deveria usar a experiência adquirida para ajudar
outras pessoas doentes. Sob minha iniciativa, foi criada uma sociedade
anônima que comprou a propriedade Humlegaarden. Bem adequada ao meu
propósito, ela foi adaptada como sanatório onde todos os doentes e
funcionários seguiam somente a alimentação crua.
Alimentos
crus são vivos
Por que será que a alimentação 100% crua exerce um efeito tão benéfico para
as pessoas que a adotam?
Em primeiro lugar, isso ocorre porque o alimento cru é um alimento vivo,
tal como nos oferece a Natureza. É somente a planta, com suas finas folhas
verdes abertas, que consegue absorver a luz solar e transformá-la em
raízes, tubérculos, frutas e sementes. Por isso, tanto homens como animais
usam as plantas para proporcionar energia solar ao seu organismo.
Chamo os alimentos crus de alimentos vivos, ao contrário dos alimentos
cozidos, que considero alimentos mortos. Devemos cuidar para que os
alimentos não contenham substâncias que contrariam a química do organismo,
para que os resíduos não fiquem retidos por muito tempo e apodreçam no
intestino grosso. Portanto, o melhor alimento é totalmente natural — não
passou por nenhum tipo de processamento. É preciso acrescentar, o alimento
vivo é muito mais fácil de digerir.
Os alimentos crus ajudam e fortalecem o organismo de todas as maneiras
porque contêm enzimas, elementos vivos básicos e vitaminas que se combinam
de forma natural, dissolvendo e eliminando as toxinas. Toda pessoa sensata
percebe que nossa alimentação atual é muito destrutiva. É a causa mais
comum e mais grave das doenças físicas e psicológicas e da degeneração
constitucional do organismo. Precisamos buscar hábitos de vida e uma
alimentação mais saudáveis, se queremos viver melhor agora e no futuro. Não
podemos nos contentar, fazendo concessões, quando a vida e a saúde estão em jogo. Precisamos
adotar a única solução correta — uma alimentação 100% crua.
As frutas secas não são tão boas quanto as frescas. Na primavera de 1946,
recebemos algumas frutas secas (uvas-passa, tâmaras, ameixas e figos).
Pensei que não faria mal incluí-las na minha alimentação, mas estava
errada. Essas frutas haviam sido tratadas com produtos químicos a fim de
preservá-las e dar-lhes melhor aspecto. Depois de consumi-las durante três
ou quatro meses, comecei, de repente, a sentir dores violentas no tecido da
mama e descobri um pequeno nódulo no seio direito, no exato lugar do câncer
anterior. Voltei a comer apenas alimentos frescos e crus e o nódulo
desapareceu.
Os alimentos frescos crus contêm o máximo valor nutritivo, não podendo ser
aumentado nem melhorado. Esquentar, secar, armazenar, fermentar e conservar
reduz e destrói o valor. As hortaliças cozidas têm pouco sabor; é preciso
fazer alguma coisa para torná-las saborosas. Misturamos vários alimentos,
acrescentamos sal, açúcar, condimentos e manteiga. Também removemos o germe
e o farelo do trigo, polimos o arroz, refinamos o açúcar, descascamos as
frutas e as batatas e raspamos as cenouras. Carnes, peixes, ovos e queijos
fornecem um grande excesso de proteína animal.
Bebidas à base de café, cacau e chá preto contêm estimulantes tóxicos. Além
disso, conservamos alimentos com produtos químicos — ácido benzóico, ácido
salicílico, salitre, ácido bórico e ácido sulfúrico — para que não
deteriorem e tenham boa aparência. Também o uso de medicamentos está
aumentando cada vez mais. Tomamos calmantes, soníferos, sedativos e
laxantes — todos eles produtos tóxicos estranhos ao organismo.
Resultado
da alimentação viva
Vamos abordar por um instante a maneira como essa alimentação age sobre
diversas doenças. A ação depende da idade do doente, da intoxicação, do
enfraquecimento e da deterioração de sua constituição, devido a uma
alimentação nociva e maus hábitos.
De forma geral, haverá um efeito curativo sobre quase todas as doenças —
quer sejam adquiridas durante nossa vida ou devidas a predisposições
hereditárias — se o organismo estiver razoavelmente bem e conseguir se
beneficiar de uma alimentação exclusivamente crua.
Percebi, também, que os doentes que se submetem totalmente à alimentação
crua perdem, aos poucos, a vontade de fumar.
Quanto mais cedo adotarmos uma alimentação vegetariana crua, mais cedo seus
benefícios se farão sentir. As mulheres que adotam uma alimentação crua
durante a gravidez, sentem-se melhor. O parto é rápido e quase sem dor; o
bebê sadio, forte e ágil, coopera. Os alimentos crus produzem leite bom e
abundante, durante todo o primeiro ano, se a mãe continuar comendo cru.
Após poucos meses, ela pode começar a dar para o bebê um complemento de
frutas e hortaliças, raladas na quantidade que ele pede. Entretanto, nunca
deve dar frutas e hortaliças ao mesmo tempo — sempre separadamente.
Mesmo a criança que ainda não nasceu pode ser prejudicada pela má
alimentação da mãe, porque é nutrida pelo seu sangue enfraquecido. Assim,
existem condições que favorecem a doença e o nenê já nasce fraco. Após o
parto, sua saúde deteriora, principalmente quando o leite materno é de
qualidade e quantidade insuficientes. Dessa forma, no mundo civilizado, as
crianças nascem fracas — algumas mais, outras menos — e a humanidade entra
em estado de degeneração.
E quanto aos idosos ou aos doentes que adotaram essa alimentação tarde
demais? O que podem esperar? Todos podem se beneficiar da alimentação
vegetariana crua.
As pessoas precisam ser pacientes, mostrar energia e estar muito motivadas.
Precisam, também, descansar bastante, principalmente no início. Os
primeiros dias podem ser sofridos, até que estejam acostumados com essa
alimentação e hábitos de vida diferentes. Logo, porém, sentirão uma
melhora. O intestino f uncionará regularmente, o que para muitos é um
grande estímulo.
A alimentação crua exerce seu efeito benéfico sobre todas as formas de
reumatismo e artrite reumática, quando essas doenças ainda não atingiram um
estado muito avançado. Constatamos o efeito benéfico sobre as doenças
causadas por excesso de ácido úrico, sobre a psoríase, enxaqueca, pedras na
vesícula, rins e bexiga. Quase todas as doenças da pele são curadas com
bastante rapidez. Queda de cabelo, seborréia e caspa desaparecem. As
infecções melhoram ou são curadas.
A alimentação totalmente crua também pode beneficiar casos de câncer e de
patologias em estágio terminal. Pode aliviar a dor e prolongar a vida.
Quando o câncer é tratado a tempo, é possível obter uma remissão durante
muitos anos. O tratamento com alimentos crus precisa ter início assim que o
câncer é detectado e precisa ser seguido 100%.
Seria muito importante que os médicos adquirissem mais conhecimento nesse
campo. Médicos dinamarqueses e estrangeiros ficaram por algum tempo em
Humlegaarden e puseram sua experiência em prática com seus clientes.
A
alimentação viva na prática
Para concluir, algumas palavras sobre as condições práticas e o uso diário
de alimentos crus. É indispensável que os alimentos sejam orgânicos. Por
isso, sentimos a necessidade de introduzir uma horta orgânica. Da mesma
forma, o solo, muito adubado com adubo químico, corre o risco de se tornar
tão doente quanto o homem — com excesso de acidez, superalimentado, dele
brotam plantas doentes, inadequadas para o consumo humano.
Cerca de mil doentes passam por Humlegaarden a cada ano. Tanto os doentes
como os funcionários vivem exclusivamente de alimentos não cozidos e, de
acordo com nossa experiência, uma dieta de transição não é necessária.
A alimentação varia de acordo com as estações do ano e consiste de três
refeições diárias. Fazemos uma refeição de frutas pela manhã e à noite e
uma refeição de hortaliças ao meio-dia. Nunca misturamos frutas e
hortaliças.
Se o estado dos doentes permitir, os alimentos crus são servidos inteiros;
se não, são ralados pouco antes da refeição. Uma vez ralados ou cortados em
pequenos pedaços, os alimentos perdem seu teor de vitaminas. Os alimentos
precisam ser cuidadosamente mastigados, de preferência até que se tornem
uma papa. Mesmo aqueles que forem ralados devem ser bem ensalivados.
Os oleaginosos fornecem um bom complemento. A refeição vegetal consiste de
folhas verdes, raízes e tubérculos. Todas as frutas são ingeridas com
casca. No caso de doenças como gastrite e úlcera gástrica, é preciso tomar
cuidado no início.
Se a alimentação crua for associada a hábitos de vida saudáveis, muita
coisa vai melhorar. As doenças, pouco a pouco, serão prevenidas. A
obesidade se tornará uma raridade.
A
vida será alegre para as pessoas saudáveis
O trabalho doméstico vai se reduzir pela metade — e as horas de lazer
adicionais serão uma fonte de alegria para todos. Veremos mais pessoas com
o corpo esbelto, o porte ereto, o andar flexível, a pele fresca, os dentes
brancos e fortes, e os cabelos vigorosos. Com o corpo saudável, nossos
pensamentos negativos se transformarão em pensamentos positivos e
contribuirão para o grande progresso cultural que o mundo aguarda
ansiosamente. Só então valerá a pena viver!
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Dra. Kirstine Nolfi,
famosa médica dinamarquesa, falecida aos 66 anos em 1967, descreveu suas
experiências com os alimentos vivos em uma pequena brochura traduzida para varias
línguas e está disponível em português na TAPS.
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