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Ter uma moradia

Vera Krause

Barracos cobertos com telhas de chapa ondulada, instáveis e tortos, “forrados” com jornais velhos ou embalagens. Quente e abafado no verão, úmido e frio no inverno. Nenhum canto protegido onde alguém possa se retirar porque está esgotado, idoso e doente, para estudar, para descansar, amar, dar à luz. Onze anos após o final da Apartheid na África do Sul, a maioria da população negra ainda sofre muito com a herança da separação de raças — também quando se trata de moradias. Aproximadamente dez milhões de pessoas vivem até hoje em condições indignas, em bairros pobres, na periferia das cintilantes metrópoles, no país do Cabo.

mulher na janelaTer uma moradia seria muito diferente. A senhora que está olhando pela janela de sua casa pode contar o que se passa. O programa habitacional do primeiro governo livremente eleito na África do Sul avança muito lentamente. Os mais pobres ficam excluídos; são pobres demais para poupar ou até liquidar um empréstimo. Por isso, um punhado de pessoas começa, por iniciativa própria, a poupar diariamente pequenas quantias para — coletivamente — obterem um crédito. Conseguem em conjunto aquilo que individualmente é impossível: construir uma casa sólida. Decisivo não é o valor da prestação, mas a regularidade dos pagamentos e a adesão a um grupo de poupança. Após alguns anos de economia e poupança, podem fazer um pedido coletivo de empréstimo. Todos os membros dos grupos decidirão conjuntamente quem irá ser o beneficiado com o empréstimo — onde a miséria é maior? Em pequenos centros de construção, instalados com auxílio da MISEREOR, os membros do grupo aprendem habilidades artesanais para fazer os alicerces, instalar canos, levantar muros, fazer o acabamento das paredes e construir telhados. Quando uma casa está pronta, todos ajudam na próxima e depois na seguinte.

Desde 1994, organizada como South African Homeless People’s Federation (Federação Sul-Africana dos Sem-Casa), foi possível fundar, até hoje, em todas as províncias do país, mais de 1.500 destes grupos espalhados, que poupam para construir. Mais de 100.000 membros ativos pertencem a estes grupos, 90% são mulheres. Desta forma, pessoas totalmente desprovidas de recursos já construíram, em conjunto, mais de 10.000 casas — por um décimo do custo cobrado por construtoras locais. Ter uma moradia: não sob telhas de chapa ondulada, mas numa casa de tijolo, que protege do sol, do frio, do vento, da chuva e da violência. São propriedades legalizadas que ninguém pode simplesmente derrubar com um trator. Um lar para as crianças; para toda a família um ambiente digno de se viver — motivo para obter saúde, segurança, instrução, profissão e uma vida melhor.

A senhora que está à janela parece satisfeita, embora um pouco cansada. Ela conhece a dor, o medo da vida na periferia. No entanto, ela não está mais só; um sinal de esperança em um país onde tantos cidadãos negros estão desempregados e à noite vão dormir com fome.
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Fonte: Calendário da MISEREOR, 2004.

 
 
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