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Medicina em excesso?
John McKnight
Face à
grande explosão dos custos na área médica, líderes trabalhistas questionam
se devem continuar a trocar ganho real por benefícios médicos. O frustrado
executivo da General Motors anunciou ter sua companhia pago uma quantia
mais elevada pelo seguro de saúde do que pelo aço para produzir automóveis.
O presidente da maior organização de seguro-saúde confessou que o principal
problema de saúde nos Estados Unidos é como limitar os custos da medicina.
A princípio, o governo federal estabeleceu diretrizes encorajando a
auto-regulamentação do setor médico. Essas medidas não deram resultado. Os
custos aumentaram, apesar dos esforços administrativos e profissionais para
limitar os gastos do sistema. Temos,
porém, cada vez mais provas de que os serviços médicos têm pouco a ver com
a saúde da população.
O economista Victor Fuchs reconhece o impacto dos novos conhecimentos
médicos sobre a saúde é mínimo e conclui que “atualmente, a melhoria da saúde do povo americano
depende, principalmente, daquilo que ele faz ou deixa de fazer por si mesmo.”
E Anne Somers escreveu que “a
maioria dos problemas de saúde importantes do país — acidentes de carros,
todas as formas de dependência de drogas, inclusive o alcoolismo, doenças
sexualmente transmissíveis, obesidade, muitos tipos de câncer, a maioria
das doenças cardíacas e dos casos de mortalidade infantil — não pode ser
atribuída a falhas no atendimento (médico), mas, sim, às condições de vida,
ignorância ou irresponsabilidade dos doentes. Nenhuma quantidade de verbas
adicionais, nem mesmo a reorganização do sistema, terão muito efeito sobre
esse problema”.
Cinco
caminhos
Face a esse dilema, a medicina americana criou novas possibilidades, novos
caminhos.
O primeiro é a erradicação
do resíduo. Existem algumas doenças que afligem uma pequena
parcela da população. Um grande esforço é orquestrado para derrotar a
poliomelite, o Lúpus eritematoso e a síndrome de Tourettes.
O segundo caminho é a possibilidade
“biônica” — intervenções cirúrgicas para reconstruir o corpo
humano. Invenções médicas mecânicas incluem hoje coronárias, implantes de
mama e substituição das articulações, o transplante de órgãos e operações
envolvendo mudança de sexo.
A terceira possibilidade é a manipulação
genética. As pesquisas sobre clones e DNA sugerem
possibilidades inimagináveis de criação de novos seres humanos. O exame do
líquido amniótico permite a eliminação dos indivíduos psicológica ou sexualmente
“indesejáveis”. Prometem o aperfeiçoamento da raça humana para permitir um
futuro mais “humano”.
O quarto caminho é a possibilidade
de redefinir a condição humana. Calvície, velhice, gravidez,
menopausa e crianças hiperativas estão sendo definidas como males possíveis
de serem corrigidos por intervenção médica. Há pouco tempo, foi descoberto
um tratamento para a “síndrome
da dona de casa cansada”. As possibilidades a serem exploradas
são ilimitadas se a medicina consegue levar as pessoas a pensar que suas
vidas são problemas médicos.
Por fim, cada uma dessas novas fronteiras médicas cria novos dilemas. À
medida que avançamos nesses novos caminhos, surgem inúmeras questões sobre
ética, custos, justiças e iatrogenia (doença provocada por erro médico). Cada
questão requer novos
recursos profissionais para corrigir os efeitos colaterais.
A
promessa é uma ilusão
Em suma, a resposta da medicina para a crise dos custos é conduzir-nos em
direção a novas fronteiras. A promessa que nos aguarda é:
- erradicar
as doenças;
- reconstruir
o corpo humano;
- recriar a
humanidade;
- oferecer
terapias para viver;
- criar
novos métodos para corrigir novos dilemas.
A
oferta é, sem dúvida, interessante. O que a medicina está nos oferecendo não é apenas a
eliminação da doença, mas o aperfeiçoamento da vida. Uma oferta difícil de
recusar!
Entretanto, até mesmo os melhores e mais brilhantes profissionais da
medicina sabem que a promessa não passa de uma ilusão. Os jornais médicos
estão repletos de angustiantes artigos reconhecendo que, em sua ilimitada pretensão, a
medicina tornou-se um falso deus que afasta o povo do caminho não-médico,
que conduziria a uma sociedade sadia.
Resta, então, saber por que a sociedade continua fazendo um investimento
tão catastrófico dos recursos nacionais.
Uma resposta diz que o povo é mal informado ou muito supersticioso e
inclinado a seguir falsos deuses. Existe, também, outra explicação — a
medicina moderna cresce porque suas principais funções são econômicas e políticas
e não terapêuticas.
Tudo indica que nossa saúde, hoje, requer mudanças importantes no
relacionamento individual, social, econômico e ambiental. Não requer
investimento na medicina. Tais mudanças exigem alterações revolucionárias
nas estruturas institucionais, nos sistema de valores, nas relações de
poder e no estilo de vida. Obviamente, aqueles que lucram com as condições
atuais não apoiariam esse “desenvolvimento da saúde”.
Como um dos principais sistemas educacionais da sociedade, a medicina
ensina duas lições fundamentais:
- quem sabe
resolver os problemas é o especialista tecnicamente habilitado. A
mensagem da propaganda médica é que precisamos acreditar no
profissional. Ele compreende os problemas. Ele conhece as respostas;
- conseqüentemente,
o bem-estar dos indivíduos depende de sua capacidade de serem
clientes. Você vai progredir e se desenvolver à medida que receber
cuidados médicos. Você é conseqüência do atendimento — não daquilo que
você faz.
A
lição ensina como resposta “certa” que as pessoas encontrem seu potencial
humano na qualidade de clientes, consumindo produtos profissionais. A
possibilidade da população mudar uma sociedade doente por meio de sua
própria ação é uma resposta “errada”, dada por cidadãos que não conseguem
aprender a lição do sistema.
Em segundo lugar, a medicina oferece placebos para os indivíduos que ainda
pensam em engajar-se em ações populares para mudar a ordem política que
determina a saúde. Para os alienados, irados ou frustrados pelo impacto
nocivo causado pela ordem atual, a medicina oferece uma quantidade
monumental de medicamentos psicotrópicos que ajudam multidões a suportar a
dor.
Em terceiro lugar, à medida que a sociedade investe nas cinco novas
fronteiras da medicina, aprende que depende da máxima conquista
profissional-tecnológica. Nossa saúde fica na expectativa dos peritos que
trabalham com seus microscópios. Em vez de criarmos uma nova ordem sadia,
acreditamos que precisamos usar nossos limitados recursos para pesquisa e
desenvolvimento.
E,
por fim, temos a habilidade da medicina moderna de ofuscar o perigo de uma
sociedade tecnológica. Sua promessa de destruir a morte pelas mãos dos
tecnocratas confirma uma visão mundial que valoriza o desenvolvimento
tecnológico acima de tudo. Em uma sociedade deteriorada, devido ao
crescimento ilimitado de sistemas tecnológicos, a medicina nos cega para a
causa da nossa morte.
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Fonte: Resumo de artigo publicado na revista “Resurgence”
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