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Medicina em crise imprimir
 

Os limites da medicina

Keith Allen

É dever dos médicos preservar a vida a qualquer custo?

O recente desenvolvimento na ciência e tecnologia médica levantou a seguinte questão: estão forçando os limites da medicina com demasiada rapidez? Seja no campo das intervenções cirúrgicas, da engenharia genética ou da embriologia in vitro, a preocupação é óbvia. Precisamos parar e refletir para onde a tecnologia está nos conduzindo. Se não conseguimos deixar de interferir nos processos da vida, onde devemos traçar os limites?

Para começar, devemos questionar a presunção de que a solução tecnológica é invariavelmente a mais adequada. Freqüentemente, uma cirurgia que pode ser feita, é realizada sem levar em consideração que possivelmente haverá dependência de aparelhos durante longo tempo. Para muitos médicos, a morte significa fracasso. Aumenta a pressão para que o médico “faça alguma coisa” usando a mais moderna tecnologia. Desta maneira, estamos encorajando uma abordagem tecnológica agressiva, quando o controle dos sintomas e o apoio ao paciente e seus familiares seria uma atitude bem mais humana.

Cada vez mais questionamos a obrigação do médico de preservar a vida a qualquer preço, porque a vida mantida pela tecnologia pode não valer a pena de ser vivida. Isso foi abordado em um debate sobre o tratamento de pacientes em estado vegetativo constante. A alimentação artificial, por meio de sonda nasogástrica, seria uma forma de sustentação da vida análoga àquela fornecida por um aparelho respirador? Se a resposta for positiva e o tratamento inútil, os médicos deveriam ter o direito de interrompê-la. Analisaram até que ponto um paciente deve ser submetido a tratamento invasivo quando não há esperança de recuperação. Também abordaram questões mais amplas, como a indignidade a que um paciente pode ser submetido, o sofrimento da família que tem um ente querido mantido vivo artificialmente e os custos da manutenção de um tratamento inútil.

Outro debate recente aborda o aumento constante da taxa de sobrevivência de bebês prematuros. A capacidade dos médicos de salvar a vida de um prematuro de apenas 22 semanas é um feito técnico memorável. Entretanto, o risco elevado de danos cerebrais mostra outra perspectiva, que precisa levar em conta os custos emocionais e financeiros — para os pais e para a sociedade — de trazer esses bebês ao mundo.

Não são apenas os médicos que procuram preservar a vida a qualquer custo. No caso de crianças, temos também a pressão dos pais, que têm expectativas irreais sobre aquilo que a medicina pode fazer. Mas os pais têm o direito de sujeitar uma criança à intervenção após intervenção? Supomos que os pais têm em mente o maior beneficio para o filho. Porém, será que autorizar incessante tratamento invasivo é o melhor para a criança? Mesmo quando esse tratamento provoca dor e hospitalização prolongada, com chance mínima de recuperação? Casos amplamente divulgados, como o de Laura Davies, que foi aos EUA para receber um transplante de fígado e intestinos, despertam muita compaixão. As emoções, porém, obscurecem um fator real: os riscos de fracasso são elevados e, em casos bem-sucedidos, a sobrevida geralmente é curta e o sofrimento para a criança, prolongado.

Estamos rapidamente chegando a uma era em que pais e sociedade poderão ter um papel decisivo no tipo de criança a ser gerada. Progressos na ciência e tecnologia médica talvez permitam identificar e corrigir doenças e distúrbios hereditários. Já conhecemos os genes que causam fibrose cística, síndrome de Down e coréia de Huntington. Talvez seja possível, no futuro, “projetar” os filhos que queremos — escolhendo sexo, cor dos cabelos e estatura —, assim como decidir sua personalidade. Devemos pesquisar os genes a esse ponto? Que direito temos de “melhorar” a natureza, de impor nosso desejo às gerações futuras? Quem decide que qualidades devem ser promovidas? Baseado em quê?

A engenharia genética e o uso de técnicas in vitro levam cientistas eminentes a um controle da reprodução humana que poderá conduzir à modificação da própria natureza dos seres humanos. As possibilidades tanto podem ser animadoras quanto alarmantes. Atingem profundamente nossa compreensão do que somos e dos valores em nossa vida e na de nossos filhos.

Hoje, é possível uma criança ter cinco pais: os pais genéticos, de cujos gametas ela é concebida in vitro, a mãe gestante que lhe dá à luz e os pais que a encomendaram e a criam. As novas técnicas de reprodução com inseminação, doação do óvulo e transferência do embrião permitem que um casal sem filhos ou uma mulher solteira iniciem uma família. Até que ponto os interesses da criança são levados em consideração? Sem dúvida, os médicos e cientistas envolvidos dirão que, antes de mais nada, pensou-se no interesse da criança. Entretanto, casos recentes de bebês nascidos de mães de meia-idade reforçam a suspeita de que, ao serem trazidas ao mundo pelas novas técnicas, essas crianças são, com freqüência, um meio para a realização pessoal de seus pais, um meio para a solução de problemas psicológicos e emocionais.

Esse talvez seja o caso da executiva inglesa, que teve gêmeos aos 59, anos após submeter-se a tratamento com o especialista italiano Dr. Severino Antinori. E o que dizer de uma senhora italiana de 60 anos, que não conseguia conformar-se com a morte do filho em um acidente de automóvel e ansiava por outro que o substituísse? Crianças, porém, não são um meio. São seres humanos com seus próprios desejos, preferências e necessidades.

O progresso da tecnologia está transformando a medicina, levando-a para novas áreas. Existem hoje tratamentos — como, por exemplo, contra infertilidade — em que o aperfeiçoamento da tecnologia possibilitou o uso de técnicas médicas em casos que, anteriormente, não podiam ser tratados. Com o aumento das expectativas, as pessoas acham que têm o direito de receber esse tratamento. Isto leva à maior dependência da tecnologia e provoca sentimentos de inadequação, frustração e raiva, quando as soluções tecnológicas falham.

Mas o problema não é apenas tecnológico. Em parte, depende de nós mesmos. Precisamos examinar nossos motivos. Queremos, como sociedade, ajudar doentes e deficientes, ou esperamos algo mais da medicina? Procuramos apenas a cura para nossas doenças ou também uma cura para nossa vulnerabilidade humana? Se antes pedíamos explicações sobre a mortalidade a um sacerdote, hoje pedimos ao profissional médico uma panacéia que nos mantenha jovens e nos faça viver eternamente. A própria vida está se tornando o problema médico e a solução é usar todos os meios tecnológicos para sustentá-la, melhorá-la, manipulá-la. Corremos o risco de nos tornarmos vítimas de um consumismo em que até seres humanos precisam ser embalados adequadamente, em que se faz de tudo para obter um produto perfeito — mesmo se o “produto” for um bebê.

O resultado é que um abismo está se formando entre a tecnologia e nossa capacidade de reagir às mudanças como seres humanos. À medida que a velocidade da mudança aumenta, o abismo aumenta. A tecnologia nos leva de roldão. Ela nos oferece uma falsa autoridade e tamanha arrogância que achamos que não existem limitações além dos nossos próprios limites — que estamos livres para fazer o que queremos na busca de “progresso”. Como sabemos fazer alguma coisa, o perigo é que vamos fazê-la — não importa se for boa ou má, certa ou errada. Estamos nos arrogando um conhecimento que simplesmente não possuímos. O conhecimento humano é necessariamente limitado, mas nossa sabedoria deveria conduzir a uma perspectiva mais ampla — não somos produto de um “ajuste tecnológico”, mas parte de algo maior do que nós mesmos.

O fato é que a ciência e a tecnologia parecem oferecer tanta coisa, explicar tudo, interferir e manipular de acordo com nossa vontade. Mas a ciência não pode explicar tudo, porque não consegue explicar a nossa existência. Podemos aspirar a ser deuses, mas não conseguimos vislumbrar o todo. Nossa própria existência limita nossa visão. Esta é uma limitação fundamental que deve orientar nossas escolhas e decisões. Afirmar que a ciência tem todas as respostas e vai curar todos os males é um engano fomentado pela nossa racionalidade. Parte do valor de sermos humanos é que não temos controle total sobre nossas vidas. Como seres humanos, somos falíveis. Precisamos nos conformar com nossa natureza humana e não tentar superá-la.

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Fonte: Resurgence nº 165. Keith Allen é formado em Filosofia e Ética Aplicada pelas Universidades de Manchester e Aberdeen na Grã-Bretanha.

 
 
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