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Cuidados
de saúde num
mundo enfermo
David
Werner
Acho
que muitos jovens entraram na faculdade com altos ideais humanitários.
Realmente querem "servir ao povo", ajudar os necessitados, amenizar
o sofrimento humano. Mas, ao longo do caminho, seu idealismo
fica soterrado sob a carga de dívidas acumuladas, ambição
crescente, orgulho, avareza, seguro contra imperícia, "distanciamento
profissional" e longas horas de trabalho rotineiro. Uma vez formados,
começaram a pensar que é seu direito ter mais
e viver melhor do que a maioria de seus semelhantes. É claro
que existem exceções brilhantes.
Bernard Shaw procurou desculpá-los dizendo: "Não é culpa
dos médicos que a profissão médica seja um
absurdo assassinato". Tais palavras parecem exageradas Entretanto,
ao olharmos os custos humanos — em termos de vida e saúde — do
nosso sistema de saúde privatizado, lucrativo, monopolizador,
desigual e escandalosamente superfaturado, a denúncia de
Shaw tem forte cunho de verdade. E, se considerarmos as tristes
conseqüências causadas pela exportação
desse nosso modelo médico-hospitalar elitista e extravagante
para o Terceiro Mundo, verificamos que as acusações
são justificadas.
Vejamos alguns fatos:
Sob
constante pressão e ameaças do governo e da indústria
dos Estados Unidos, a OMS e a UNICEF
resignaram-se a tornar algumas medidas técnicas "tapa-buraco" para
proporcionar uma
"rede de segurança" aos grupos de maior risco. Pense:
- de
cada dois indivíduos no mundo inteiro,um jamais vê um
profissional de saúde;
- de
cada três, um não tem
água potável para beber;
- de
cada quatro crianças no mundo, uma é desnutrida.
No
entanto, o mundo todo continuam a gastar mais de US$ 50 bilhões
em armamentos a cada 3 semanas — quantia que poderia
fornecer atenção primária para toda a população
mundial durante um ano inteiro. E quando as Nações
Unidas reúnem-se para discutir o impacto potencial de
desarmamento sobre a saúde e o desenvolvimento, são
boicotadas pelo governo dos Estados Unidos, com a alegação
de que desarmamento e desenvolvimento não têm relação
um com o outro.
Há necessidade de um novo enfoque
Já é hora de reavaliar o que significa saúde
e rever as estratégias para a melhoria de bem-estar geral.
Diversos "especialistas" — de médicos a educadores,
economistas e ambientalistas —
alegam que um ou outro dos seguintes fatores teria maior impacto
sobre os níveis de saúde :
- assistência
médica;
- estilo
de vida;
- tamanho
da população e da família;
- nível
da alfabetização ou de "educação
feminina";
- fatores
econômicos;
- fatores
ambientais;
- estruturas
de poder (quem manda).
1.
Assistência médica
Muitas pessoas, principalmente os médicos, acreditavam que
a assistência médica
seria o fator decisivo para a saúde e que padrões
médicos elevados com certeza melhorariam a saúde
da população.
Para constatar que isso não é verdade, basta ver
os Estados Unidos que, com certeza, têm o sistema de saúde
mais caro do mundo. Têm os mais altos padrões de medicina,
mas a saúde dos americanos está um último
lugar entre os países industrializados.
A assistência médica certa não é o fator
decisivo de uma população. Porém, levando
em conta que, até certo ponto, o serviço médico tem influência
sobre os padrões de saúde, o acesso ao serviço é bem
mais importante do que padrões elevados. A preocupação
profissional com os "padrões elevados" — quando usada
para justificar os custos crescentes ou para combater os serviços
comunitários informais e a autocura — pode transformar-se
em um obstáculo à saúde.
2. Estilo de vida
Ultimamente, é dada muita importância ao "estilo de
vida" como determinante da saúde. É óbvio
que o estilo de vida influencia a saúde. Mas responsabilizar
o estilo de vida é muito conveniente porque põe
a culpa somente no indivíduo
Um bom exemplo é o fumo. Como sabemos, rapidamente está se
tornando um grande problema nos países subdesenvolvidos.
E quem é o responsável? Os fumantes? As indústrias
de cigarro? O governo ou todo sistema social que coloca os lucros
acima das pessoas?
Como o número de fumantes está diminuindo nos Estados
Unidos, a industria do fumo tem se voltado para o Terceiro Mundo
em busca de novo mercado. A propaganda
é dirigida para mulheres e adolescentes. Para apoiar sua
indústria, o governo americano ameaça com sanções
econômicas os países pobres que se recusam a acabar
com as barreiras contra a importação de fumo. Como
resultado, o número de fumantes aumentou astronomicamente
nos países do Terceiro Mundo. Segundo a OMS, isso poderá desencadear
um pandemia de câncer. Além disso, estudos em comunidades
pobres mostram um aumento de desnutrição e de mortalidade
infantil quando o gasto com cigarros entra na renda familiar.
3. Tamanho da população
e da família
O rápido aumento da população e as famílias
grandes costumam ser citados como motivos da pobreza e da conseqüente
falta de saúde, principalmente nos países pobres.
Entretanto, estudos indicam o contrário: famílias
numerosas costumam ser o resultado da pobreza, não a causa.
Para os pobres, os filhos constituem mão-de-obra barata
e sustentarão os pais na velhice. Os programas de controle
demográfico têm pouquíssimo impacto nos lugares
onde a miséria é extrema. O que realmente permite
que as famílias sejam menores é a distribuição
mais justa dos recursos, assim como certas garantia sociais e econômicas
básicas. Só então os pobres terão
menos filhos. Cuba é um excelente exemplo do que estou afirmando.
Cuba não forçou o controle da natalidade. Porém,
como ofereceu assistência médica, educação,
moradia, emprego e garantias para deficientes físicos e
idosos, houve queda acentuada da taxa de crescimento populacional.
4. Alfabetização e educação
feminina
A alfabetização feminina tem grande impacto na melhoria
da saúde. A alfabetização amplia a troca de
informação, desde instruções na bula
do remédio até a literatura mais recente. Alfabetizar
as mulheres é garantir-lhes maior oportunidade de defenderem
a si e a seus filhos, em um ambiente onde ambos estão em
desvantagens.
5. Fatores econômicos
A pobreza é claramente uma das causas latentes de doença
e morte precoce. A mortalidade infantil nos países mais
pobres é 10 a 20 vezes superior à dos países
ricos. Em cada país, saúde e sobrevivência
nas famílias pobres também são piores do que
nas famílias ricas — seja nos Estados Unidos ou na Índia.
A distribuição de renda pode ser o fator mais importante
para a saúde do que a riqueza (Produto Interno Bruto — PIB)
de um país. Por exemplo, na Costa Rica, os indicadores são
bem mais elevados do que no Brasil, embora sua renda per capita seja
mais baixa. Porém, no Brasil, a distância entre ricos
e pobres
é muito maior do que na Costa Rica. Além disso, a
Costa Rica tem distribuição mais equilibrada de serviços
públicos, inclusive assistência médica, educação
e moradia.
6. Fatores ambientais
A nova e gigantesca ameaça à saúde e mesmo à sobrevivência
da humanidade é
provocada pelo impacto devastador do homem sobre o meio ambiente.
A devastação do meio ambiente — desmatamentos,
desertificação, efeito estufa, destruição
da camada de ozônio, rebaixamento dos lençóis
de água, depósito de lixo tóxico e nuclear,
destruição do solo, chuva ácida, envenenamento
de rios, lagos e oceanos e o esgotamento de recursos não
renováveis — tem origem no desenvolvimento econômico
baseado em explorar, denominar e "crescer" a todo custo.
7. Estruturas de poder da sociedade
A indústria de cigarros é apenas uma das inúmeras
que colocam o crescimento econômico acima da saúde
da humanidade e do planeta. Vejamos algumas dessas grandes "indústrias
assassinas":
- fumo;
- bebidas
alcoólicas;
- drogas;
- agrotóxicos;
- produtos
farmacêuticos desnecessários, perigosos e superfaturados;
- armas
e equipamentos bélicos.
Todas
são indústrias enormes, poderosas e extremamente
lucrativas. O seu custo, em termos de saúde e vidas humanas, é incalculável.
A resistência — física, econômica, mental
e social —, enfraquecida por essas empresas inescrupulosas,
aumenta o impacto de infecção e da desnutrição.
O governo dos Estados Unidos defende os interesses de cada uma
dessas indústrias
à custo da saúde, da qualidade de vida e, freqüentemente,
da sobrevivência de milhões de seres humanos. A
saúde é determinada muito mais por fatores políticos
e sociais — por quem tem poder — do que pelos serviços
de saúde.
O que podemos fazer?
Como futuros médicos, vocês podem estar pensando que
nada disso lhes dizem respeito. Afinal, as escolas de medicina
preparam vocês para serem "pessoal da doença"
e não "pessoal de saúde" e o futuro promete doenças
mais do que suficientes para mantê-los ocupados. Minha opinião é que,
no mundo atual tão doente, o grande desafio para um
médico é tornar-se um "promotor de saúde da
comunidade"
no sentido mais amplo. Para que os futuros médicos sejam
mais bem preparados para enfrentar os problemas atuais de saúde,
há necessidade de mudanças profundas em nossas faculdades
de medicina. Os médicos precisam aprender a trabalhar com
a comunidade inteira, não apenas com indivíduos doentes.
Precisam aprender compartilhar seus conhecimentos, a desmistificar
sua habilidades.
Gostaria de mencionar dois "exemplos" que poderiam inspirá-los
a tornar-se promotores de saúde e de mudança — Carlos
Biro, do México e Zufrullah Chowdhury, de Bangladesh. Ambos
trabalham em comunidades e ambos conseguiram uma transformação
da formação médica em seus países.
Na década de 60, Carlos Biro era um endocrinologista famoso
e o maior especialista em lúpus eritematoso do México.
Um dia, ele se perguntou "por que sou especialista de uma doença
rara, quando as principais causas de morte são desnutrição
e diarréia infantil?".
Carlos tirou licença na faculdade onde ensinava e viajou
durante um ano por todo o México, querendo sentir os principais
problemas de saúde. Acabou em Netzahualcoyotl, uma enorme
favela na Cidade do México. Havia apenas um
ambulatório, não havia
eletricidade ou água encanada e apenas duas ruas pavimentadas.
Mais da metade de população era desempregada.
Carlos viu que o ensino médico não preparava absolutamente
os alunos para essa realidade. Decidiu tentar uma nova abordagem.
Transferiu 36 alunos do primeiro ano para Netzahualcoyotl. A sala
de aula era a favela.
No primeiro dia de aula, cada aluno visitou 15 famílias
para conhecer os principais problemas de saúde. No segundo
dia, discutiram o que tinham visto. No terceiro e quarto dias
fizera o mesmo com outras 15 famílias. Continuaram a visitar
essas 30 famílias todas as semanas. Assim, cada estudante
tornou-se o "conselheiro de saúde", com cerca de 300 pessoas.
Isso significa que, durante todo seu primeiro ano de faculdade,
os 36 alunos fizeram visitas regulares a aproximadamente 10 mil
pessoas carentes.
Todo o currículo do primeiro ano foi elaborado segundo os
tópicos que os alunos acharam necessários para ajudarem
as famílias a resolverem seus problemas de saúde.
Matérias comuns, como anatomia e farmacologia, foram introduzidas
apenas para facilitar a compreensão dos problemas do dia-a-dia.
O ensino tornou-se prático e orientado pelos problemas reais.
Para espanto geral, os alunos de Biro tiraram notas um pouco acima
daqueles que ficaram o ano inteiro estudando no campus universitário.
E o impacto da experiência sobre aqueles 36 alunos foi tão
grande que, após a formatura, mais da metade foi trabalhar
em comunidades carentes.
Hoje, mais de 20 anos após a audaciosa experiência,
o "Plano 36", como se tornou conhecido, continua sendo uma opção
que desafia os alunos do primeiro ano de medicina.
Biro costuma brincar que suas principais metas para o ensino médico
são "desprofissionalizar" a medicina e colocar o controle
sobre a saúde nas mãos do povo.
Zafrullah Chowdhury acabava de se formar em medicina, em Bangladesh,
quando aderiu à luta pela independência do Pasquistão.
Devido à enorme falta de pessoal médico, ele começou a treinar "médicos
descalços". Após a independência, continuou a trabalhar
com a população carente.
A equipe de agentes de saúde formada por Zafrullah ensinou
as pessoas a procurarem as causas básicas de seus problemas.
Muitas vezes, isso a levava a confrontos com a lei local — as
mulheres, principalmente, começaram a organizar-se e a exigir
seus direitos.
Mas Zafrullah não parou aí. Indignado com a avalanche
de medicamentos irracionais e superfaturados que os laboratórios
farmacêuticos multinacionais empurravam para o seu país,
fundou a "Companhia Farmacêutica do Povo", para fabricar
medicamentos essenciais baratos. A maioria das operárias
eram mães
solteiras pobres, que primeiro eram alfabetizadas e recebiam
educação em higiene.
Os laboratórios multinacionais fizeram de tudo para fechar
a farmácia do povo. Ficaram furiosos quando Zafrullah convenceu
o Ministério da Saúde a adotar uma política
de medicamentos essenciais e proibir a importação
de remédios desnecessários e superfaturados. Ameaçaram
cortar todo o suprimento de medicamentos e o governo dos Estados
Unidos ameaçou com sanções econômicas,
mas o Ministério da Saúde continuou firme. A corajosa
postura de Bangladesh, incentivou outros países a fazerem
o mesmo.
Carlos Biro e Zafrullah Chowdhury compreenderam o que significa
lutar pela saúde. Se vocês querem realmente fazer
alguma coisa para melhorar e preservar a saúde da população,
precisam ir muito além da medicina ou mesmo da "saúde
pública". Vocês precisam tomar partido e arriscar-se.
Precisam tomar posições firmes diante das questões
que determinam a saúde e a sobrevivência.
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D. Werner é diretor de HealthWrights, Workgroup for People's
Healths and Rights e coordenador regional do Conselho Internacional de
Saúde dos Povos para a América do Norte na Califórnia.
Ele apresentou esta palestra em 1990, durante o 40º encontro anual da
Associação
Americana de Estudantes de Medicina, Arlington, VA, EUA.
"A
maioria das faculdades de medicina do mundo
prepara o médico não para a saúde da população,
mas para se dedicar a um exercício da medicina, que é cego
para tudo que não seja a doença e a tecnologia para
tratar dela"
Dr. Halfdan Mahler
Ex-Diretor Geral da Organização Mundial da Saúde
Primeiro
hospital de ensino para
medicina natural na Grã-Bretanha
A
Associação de Médicos Generalistas especializados
em Medicina Natural está planejando, em Londres, um hospital
de ensino para essa especialidade, afim de permitir que
todos tenham oportunidade de conhecer os benefícios de
sistemas alternativos de medicina. Estão fundando a faculdade
integrada a uma clínica para oferecer ensino de pós-graduação
em Medicina Natural e realizar pesquisas na prevenção,
no tratamento e na cura das doenças por meios naturais.
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