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Como
as indústrias farmacêuticas "enganam" as publicações
médicas
Antony
Barnett
Gigantes
farmacêuticas contratam autores fantasmas para produzir
artigos —
e colocam nomes de
médicos neles
Centenas
de artigos em periódicos médicos, que deveriam ter
sido escritos por acadêmicos ou médicos, foram escritos
por autores — fantasmas contratados por laboratórios
farmacêuticos,
como revela uma investigação da publicação The
Observer.
Esses periódicos, bíblias da profissão, exercem
enorme influência sobre quais medicamentos os médicos
receitam e o tratamento proporcionado pelos hospitais. Porém,
o periódico The Observer obteve provas de que
muitos artigos escritos por assim chamados "acadêmicos
independentes", podem ter sido escritos por autores a serviço
de agências,
que recebem grandes somas das indústrias farmacêuticas
para fazer propaganda dos seus produtos.
Estimativas sugerem que, quase metade de todos os artigos publicados
em periódicos, são de autoria de escritores-fantasmas.
Enquanto os médicos que colocaram seus nomes nesses trabalhos
são geralmente muito bem pagos por '"emprestar" sua reputação,
os escritores-fantasmas permanecem ocultos. Seu envolvimento
com as indústrias farmacêuticas raramente são
revelados. Esses trabalhos, endossando certos medicamentos, são
exibidos perante os clínicos como pesquisa independente
para persuadi-los a receitar os medicamentos.
Em fevereiro, o New England Journal of Medicine, foi forçado
a revogar um artigo publicado no ano anterior, por médicos
do Imperial College, em Londres, e do National Heart
Institute, sobre o tratamento de um tipo de problema
cardíaco.
Veio à tona o fato de que vários dos autores arrolados
tinham pouca ou nenhuma relação com a pesquisa. A
fraude somente foi revelada quando o cardiologista alemão,
o Dr. Hubert Seggewiss, um dos oito autores relacionados, telefonou
para o editor do periódico para dizer que nunca tinha visto
qualquer versão do trabalho publicado.
Um artigo publicado em fevereiro último no Journal of
Alimentary Pharmacology, especializado em distúrbios
do estômago, envolveu um autor trabalhando para o gigante
farmacêutico AstraZeneca — um fato que não foi
revelado pelo autor. O artigo, escrito por um médico alemão,
reconhecia a "contribuição" da Dra. Madeline Frame;
porém, não admitia a sua condição de
autora sênior da AstraZeneca. O artigo apoiava o uso
de um medicamento chamado Omeprazole — de fabricação
da AstraZeneca — indicado para úlceras gástricas,
apesar de pareceres revelando mais reações adversas
do que os medicamentos similares.
Poucos dentro da indústria têm coragem suficiente
para romper o silêncio. Entretanto, Susanna Rees, assistente
editorial de uma agência de trabalhos sobre medicina até 2002,
ficou tão preocupada com o que tinha testemunhado, que
mandou uma carta para o website do British Medical Journal. “As
agências que escrevem artigos médicos fazem tudo
que é possível
para esconder o fato de que os trabalhos que escrevem e submetem
a periódicos e eventos são escritos por fantasmas
a serviço das empresas farmacêuticas e não
pelos autores apontados”, escreveu ela. “O sucesso
desses trabalhos-fantasmas é relativamente alto — não
enorme, mas consistente”.
Susanna Rees disse que, como parte do seu trabalho, ela devia
assegurar que em nenhum artigo a ser eletronicamente submetido
tivesse qualquer vestígio quanto à origem da pesquisa. “Um
procedimento padrão que usei estabelece que, antes que
um trabalho seja submetido a um jornal eletronicamente ou em
disco, o assistente editorial precisa abrir o arquivo do documento
no Word e eliminar os nomes da agência responsável
pela redação
ou da agência de autores-fantasmas ou da companhia farmacêutica
e substituí-los pelo nome e a instituição
da pessoa que foi convidada pela indústria farmacêutica
(ou da agência que atua em seu nome), a ser apontada como
autor principal, embora não tenha contribuído
para o trabalho”, escreveu ela. Quando entraram
em contato, ela se recusou a dar detalhes. “Assinei
um acordo de confidencialidade e estou impedida de fazer
comentários”,
disse ela.
Um autor que tem trabalhado para diversas agências, não
quis ser identificado por receio de não conseguir trabalho
novamente. “É verdade que algumas vezes a empresa
farmacêutica paga um autor de assuntos médicos
para escrever um artigo apoiando um medicamento em particular” disse
ele. “Isso significa usar toda a informação
publicada para escrever um artigo explicando os benefícios
de um tratamento em particular. Depois, um médico conhecido
será procurado para assinar o trabalho. Esse será submetido
a um periódico sem que alguém saiba que um autor-fantasma
ou uma indústria farmacêutica está por
trás disso. Eu concordo que isso seja provavelmente antiético,
mas todas as empresas estão fazendo isso”.
Um campo onde os artigos-fantasmas vem se tornando um problema
crescente é a o da psiquiatria. O Dr. David Healy, da Universidade
de Wales, estava realizando pesquisas sobre os possíveis
perigos dos antidepressivos, quando o representante de um fabricante
de medicamentos lhe mandou uma mansagem por e-mail oferecendo ajuda.
A mensagem, vista pelo The Observer, dizia: “Para
reduzir a sua carga de trabalho a um mínimo, pedimos que
nosso autor-fantasma produzisse um rascunho baseado no trabalho
publicado por V.S.a. Veja o anexo”. O artigo era uma
resenha de 12 páginas
a ser apresentada em um evento em data próxima. O nome do
Dr. Healy aparecia como único autor, embora nunca tivesse
visto uma única palavra desse trabalho antes. Como não
gostou da brilhante resenha do medicamento em questão, ele
sugeriu algumas mudanças.
O fabricante respondeu, dizendo que ele não tinha notado
alguns pontos “comercialmente importantes”. O trabalho-fantasma
apareceu finalmente no congresso e em um periódico psiquiátrico
em sua forma original — porém com o nome de outro
médico. O Dr. Healy disse que tais fraudes vem se tornando
mais freqüentes. “Acredito que 50 por cento
desses artigos sobre medicamentos nos principais periódicos médicos
não são escritos na forma que a pessoa comum espera...
As provas que tenho visto sugerem que uma significativa proporção
dos artigos em periódicos, como o New England Journal
of Medicine, o British Medical Journal e o Lancet,
foram escritos com a ajuda de agências”,
disse ele.
“Não são mais que informações
comerciais pagas pelas empresas farmacêuticas”.
Nos Estados Unidos, em um caso levado à justiça contra
a indústria farmacêutica Pfizer, apareceram documentos
internos dessa empresa mostrando que ela empregava uma agência
de autores de assuntos médicos de New York. Um dos documentos
analisa artigos sobre o antidepressivo Zoloft. Em alguns dos trabalhos
faltava somente uma coisa: o nome de um médico. Na margem,
a agência tinha colocado as iniciais TBD. O Dr. Healy
acha que significam to be determined (a ser determinado).
O Dr. Richard Smith, editor do British Journal Of Medicine,
admitiu que os artigos-fantasmas são um “grande problema”. “Estamos
sendo enganados pelas companhias farmacêuticas. Os trabalhos
vêm com os nomes de médicos e, freqüentemente,
descobrimos que alguns deles não têm a menor idéia
a respeito do que escreveram”, disse ele. “Quando
descobrimos , rejeitamos o trabalho; mas é muito difícil.
De certa forma, nós mesmos causamos o problema ao insistir
que qualquer envolvimento com uma empresa farmacêutica
seja divulgado. Encontraram caminho para contornar isso e vão
trabalhar na clandestinidade”.
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Antony
Barnett
é redator de Assuntos de Interesse Público do periódico The
Observer (Grã-Bretanha).
Artigo publicado em 7 de dezembro de 2003
Conflito
de interesses
Uma análise de 789 artigos dos jornais médicos mais
importantes
(The Lancet, New England Journal of Medicine, Journal of the
American Medical Association,
Annals of Internal Medicine) mostrou que um terço
dos autores titulares tinham interesses financeiros
em suas pesquisas, sob a forma de patentes, ações
ou
honorários das empresas,
por estarem no Conselho Consultivo ou
trabalhando como diretores.
Veja integrityinscience.org,
onde você encontra todos os cientistas e pesquisadores
comprometidos com as indústrias |
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