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Jogando
com a saúde
Horst-Eberhard Richter
“O
serviço de saúde cultiva e recompensa a corrupção.
Ele castiga sistematicamente o bom senso
e a tentativa de economizar.”
Walter Kraemer
O homem quer ter saúde, porém a economia também
quer ter saúde. Às vezes, o governo precisa decidir
qual a saúde mais importante. Ás vezes, ele dá preferência à saúde
da economia. Isso não é divulgado, para poupar aborrecimentos
e evitar que a população fique preocupada. Isso está se
tornando cada vez mais difícil mas, em caso de dificuldades,
a indústria oferece conselho e apoio. Ela encontra pesquisadores
para provar que os produtos prejudiciais à saúde
são inofensivos, que as doses limites para substâncias
nocivas podem ser regulamentadas em níveis elevados, e todos
os leigos no assunto se sentem seguros.
Como eles procedem foi observado no exemplo do perigoso amianto.
Trata-se de um material fibroso, utilizado em inúmeros tubos
e placas. Fibras microscópicas se soltam e permanecem no
ar como pó invisível, causando problemas respiratórios
e câncer do pulmão. Na Alemanha, o Instituto Federal
de Saúde empenhou-se a examinar o limite máximo de
fibras de amianto por metro cúbico de ar que poderia ainda
ser considerado inofensivo à saúde. Primeiro, os
cientistas acharam que o limite de 100 fibras não deveria
ser ultrapassado. Repentinamente, porém, mudaram de opinião
e informaram que o limite seria de 1000 fibras. Isso levantou suspeitas.
De repente, o amianto era menos perigoso? Ou os cientistas tinham
algum motivo pessoal para julgar as fibras com maior bondade?
Por azar, o Instituto teve que submeter toda a sua documentação
a um exame. Os peritos ficaram espantados. Verificaram que não
existe pesquisa alguma, no campo do amianto, que não tenha
sido financiada pela indústria de amianto.
Mais tarde, o Instituto informou que, pelo menos os canos de cimento-amianto
que transportam a água potável são inofensivos,
porque as partículas fibrosas que bóiam na água
não comprometem a saúde — a verba para esta
pesquisa também era de um fabricante de amianto. O porta-voz
do Instituto Federal de Saúde explicou com franqueza irrefletida:
assim como o Instituto, todas as universidades e laboratórios
de pesquisa trabalham em conjunto com a indústria, para
obter resultados orientados para o trabalho prático.
É muito triste quando um instituto governamental é apanhado
em flagrante, aceitando verbas — para analisar os riscos de saúde — diretamente
das empresas que causam estes riscos. Pior ainda é divulgar que todos
os outros estão fazendo o mesmo.
Dentro de quatro paredes, os teóricos podem debater o motivo
que leva a indústria a orientar a maioria das pesquisas
médicas de acordo com seus interesses e argumentar que nem é possível
ser diferente, numa sociedade que quer cada vez mais privatização
e menos controle governamental; que a economia precisa exercer
influência sobre a determinação dos riscos
que são divulgados, dos riscos que são disfarçados
e como os limites são estabelecidos para substâncias
nocivas. Tudo isso segue a religião moderna de que o mercado — o
intercâmbio de todos os egoísmos — regula tudo
da melhor forma.
Assim, a sociedade pertence necessariamente aos
mais fortes. Não às pobres repartições
públicas ou às universidades federais, que atualmente
nem têm a verba necessária para um ensino adequado — e
muito menos para pesquisas importantes. Se a indústria não
financiasse generosamente cientistas, pessoal técnico, laboratórios,
equipamento e projetos, milhares de universidades seriam fechadas.
Sabe-se, há muito tempo, que a indústria dirige quase
todas as carreiras acadêmicas na medicina. O pesquisador
jovem e ambicioso da área médica, que sabe orientar
seu trabalho segundo os interesses dos benfeitores da indústria,
tem sucesso garantido. Ele consegue verbas especiais para pesquisa,
pode visitar famosas instituições estrangeiras, é convidado
com a esposa ou amiga para cursos de aperfeiçoamento nas
mais belas estações de esqui ou de águas.
As empresas o deixam trabalhar com o equipamento mais caro, financiam
pessoal técnico auxiliar, permitem que teste os medicamentos
mais recentes, auxiliam na publicação de seus trabalhos.
Após algum tempo, é apresentado — com os resultados
benéficos de suas pesquisas — em cursos de especialização
profissional e congressos e sobe, sem demora, em sua carreira.
Um desses pesquisadores viaja de um lugar para outro, como descobridor
de um tipo de margarina que protege o coração de
maneira fantástica (até que, após 10 anos,
fica provado que ela não protege nada). Outro faz propaganda
do milésimo produto psicotrópico que garante definitivamente
a harmonização da alma. Um terceiro circula como
hábil pesquisador de uma engenhoca que mediu, em 500 pessoas,
alguma coisa possível de ser medida da mesma forma com 20
aparelhos já conhecidos. Como quase todas as carreiras seguem
o mesmo caminho, cada um dos patrocinados encontra, em cada escalão,
chefes, peritos e agremiações que não fazem
objeção à sua amizade com as indústrias
de margarina, dos produtos farmacêuticos e de equipamentos — todos
consideram perfeitamente normal, pois fazem o mesmo.
Por outro lado, provoca aborrecimento àquele que se interessa
demais pelo exagero de exames diagnósticos desnecessários,
pelos inúmeros medicamentos inúteis e pelos medicamentos
que mais prejudicam do que fazem bem. Diante de interesses tão
excusos, ele precisa ter dotes científicos extraordinários
para não ser eliminado. Obviamente, será despedido
com um certificado brilhante e algum motivo fictício.
Sempre, porém, um ou outro fanático pela verdade,
infelizmente, encontra uma brecha. Pior ainda se ele consegue obter
os recursos para um projeto de pesquisa embaraçoso.Talvez
para analisar se os gases que saem do escapamento do motor Diesel
são nocivos. Aí, um homem desses descobre — isso
ocorreu recentemente — que estes gases causam câncer
nos ratos. E não é possível impedi-lo de
passar sua descoberta para as mãos erradas. Imediatamente,
uma comissão do Senado viu-se obrigada a colocar as emissões
dos motores Diesel na lista dos cancerígenos. Isto, após
a declaração oficial de que os motores Diesel eram
pobres em substâncias nocivas e por isso sofreriam uma redução
de impostos — uma grande atração para muitos
compradores.
O que fazer? Rapidamente foi desencadeada a reação
específica prevista para tais casos catastróficos.
Foi divulgado que o pesquisador responsável era um cientista
que está por fora. O diretor das empresas que produzem a
maioria dos veículos a Diesel até se fez de “vítima
de alegações levianas e sem fundamento”. Imediatamente,
o valor dos resultados foi colocado em dúvida: “Homens
reagem de maneira diferente dos ratos. Se o gás Diesel fosse
nocivo ao homem, já se saberia há muito tempo que,
no manuseio profissional com este produto, freqüentemente
ocorrem casos de câncer”.
Exatamente esta suposição foi confirmada por uma
pesquisa americana. Mesmo as dúvidas cuidadosamente plantadas,
a respeito da competência profissional do pesquisador em
questão, não adiantaram nada, pois ele foi apoiado
por renomados colegas nacionais e estrangeiros. Resultado: não
o pesquisador teimoso mas o empresário descontente ficou
desacreditado. E a queda de 20 % na venda de veículos Diesel
foi um golpe ainda maior. Uma montanha de cacos foi provocada por
uma única cabeça dura, colocada no local errado,
e que escapou ao afastamento em tempo hábil.
Entretanto, nem sempre incidentes desse tipo precisam acabar tão
mal. Para alívio dos leitores, gostaria de apresentar o
exemplo de uma situação conflitante que foi solucionada
de maneira mais elegante.
Bem impressionado com o currículo do candidato, o superintendente
de um hospital universitário convidou um especialista estrangeiro,
competente no combate a dores, a ocupar um cargo de chefia. O superintendente
não sabia que o novo médico estava pesquisando, com
desconfiança e há muitos anos, os efeitos colaterais
de determinado medicamento contra dor-de-cabeça. Como chefe
de uma clínica, o médico encontrou novos indícios
em seus pacientes que estes comprimidos, tão apreciados, às
vezes levavam à dependência e, utilizados por longo
tempo, até provocavam danos aos rins. Os problemas nos rins,
por sua vez, causavam dor-de-cabeça, o que induzia os pacientes
a aumentarem ainda mais a dose de comprimidos. O chefe da clínica
reuniu, cuidadosamente, todos os resultados suspeitos e não
se acanhou a escrever um artigo, que ele ofereceu a uma conhecida
revista médica alemã para publicação.
A redação, tomada de surpresa, logicamente não
pensou em primeiro lugar nos milhares de pacientes inocentes que,
diariamente, consumiam este medicamento suspeito, mas no provável
desgosto do fabricante e seus anúncios tão bem-vindos.
Portanto, a revista enviou o artigo — obviamente sem consultar
o autor — para a indústria farmacêutica que
produz os comprimidos. Esta, por sua vez, enviou dois representantes
de peso, por avião, ao superintendente consternado do hospital
universitário. Perguntaram porque permitiu que um artigo
tão desagradável saísse de sua instituição.
Mencionavam, de passagem, as verbas que a indústria, mensalmente,
destinava ao hospital universitário. Imediatamente, o superintendente
pediu explicações para o perplexo chefe de clínica
que havia pensado ingenuamente nos benefícios da sua comunicação.
O superintendente perguntou se ele estava louco. Se nem se importava
com a situação delicada do hospital e do fabricante, “tão
gentil”. Impotente diante da superintendência, da redação
da revista e da empresa, o autor acuado concordou em omitir o nome
do medicamento. Sobrou apenas a fórmula química que,
para o leitor normal, pouco significa.
Poucos dias mais tarde, o chefe da clínica perdeu seus assistentes
e suas instalações de pesquisa. Mudos e sem resistência,
todos os colegas (com excessão de um amigo), assistiram à punição.
Para o humilhado, a demissão era a única saída.
Sua carreira universitária estava encerrada — uma
lição salutar para centenas de assistentes da faculdade
que discutiam os prós e os contras do caso. Alguém,
que tivesse a intenção de seguir o caminho errado
do chefe de clínica, estava curado. Liberdade de pesquisa — tudo
bem. Mas precisa haver ordem, ou seja, lealdade irrestrita no sentido
correto.
A punição de ações erradas intimida
as pessoas sensatas mas, fato curioso, um ou outro rebelde se sente
atraído. Em todo o caso, o chefe de clínica demitido
deixou um rastro crescente de seguidores que denunciavam, sem o
menor respeito, os medicamentos perigosos ou totalmente ineficazes.
Conseguiam publicar esses artigos na imprensa leiga, com maior
facilidade do que nas revistas científicas.
Finalmente,
foi preciso dar um ultimato aos responsáveis por esses periódicos:
Falem positivamente de nossos produtos farmacêuticos ou cortaremos
nossos anúncios!
Uma indústria farmacêutica de renome decidiu exercer
pressão sobre todas as editoras. As exigências categóricas
incluíam, por exemplo, redatores com neutralidade política
e terapêutica(!), publicação das notícias
somente após verificação pelos atingidos (não
os pacientes, mas os fabricantes!), contatos mais intensos com
a associação das indústrias farmacêuticas,
a não “dramatização de riscos de medicamentos”.
Cada destinatário devia devolver uma cópia desta
carta ameaçadora, devidamente assinada — como declaração
de submissão.
Isto mesmo! Quem não obedece tem que sentir na pele. Por
que a indústria deveria se preocupar com a base financeira
das revistas, em vez de cuidar de seu próprio bem-estar?
Além disso, as indústrias farmacêuticas podem
tranqüilamente invocar o fato de milhões consumirem,
diariamente e por conta própria, analgésicos, calmantes,
estimulantes ou soníferos, sem se preocupar se fazem bem
ou mal. As pessoas tomam bebida alcoólica demais, comem
demais e muito mal: em geral têm plena consciência
dos prejuízos que o prazer lhes acarreta. Afinal, a indústria
farmacêutica não é nenhuma instituição
de caridade.
Ou, será que talvez seja? Será que ela preenche uma função
psicoterapêutica na sociedade? Qual seria a conseqüência se
um cidadão normal não pudesse consumir, no decorrer de sua vida,
30.000 mil comprimidos? Ele iria beber mais álcool, talvez se tornasse
dependente de drogas ou iria aderir a algum movimento de protesto.
Milhões
de pessoas só conseguem encarar a vida, o medo de catástrofes,
poluição ambiental e guerras, porque podem se proteger da amargura
com estimulantes e antidepressivos e da raiva com calmantes e soníferos.
Segundo Marx, a religião é ópio para o povo. Hoje, a maioria
não tem mais religião, só o ópio na forma de tranqüilizantes.
Estes, segundo a propaganda, harmonizam a alma, são óculos de
sol para a alma ou libertam do medo. Quando a raiva sobe à cabeça,
existem medicamentos para dor-de-cabeça e quando a raiva afeta o estômago,
existem medicamentos para o estômago. Talvez todos se rebelassem em massa
contra a destruição da natureza, a corrida armamentícia,
a energia atômica, a tecnologia genética, a opressão das
mulheres — se não tivessem produtos farmacêuticos que os
acalmassem. Estes já se tornaram, portanto, instrumento indispensável,
base moderna da política de segurança e ordem nos países
industrializados. Assim, ninguém pode levar a mal que a indústria
farmacêutica se oponha com sucesso a qualquer legislação
rigorosa do setor.
Alguns pesquisadores, com vontade de comprar briga, descobriram
que 60 % dos medicamentos vendidos na Alemanha produzem pouco ou
nenhum efeito. Isto causa aborrecimento, mas não é muito
grave. A maioria dos consumidores é suficientemente sugestionável
para, obedientemente, sentir o efeito positivo do medicamento,
que está indicado na bula ou em outro lugar. Quem vai se
preocupar com advertências indicando efeitos colaterais estatisticamente
raros?
Todos compreendem que não se pode exigir do fabricante que
mostre as desvantagens do seu próprio produto. O governo
também prefere fechar os olhos, quando deveria esclarecer
a periculosidade dos produtos — mas isso também é compreensível.
Sempre há a pergunta, quando alertamos oficialmente a respeito
de um produto nocivo de grande consumo popular. “Qual é o
número de postos de trabalho ameaçados, em comparação
com o número de consumidores potencialmente ameaçados?” Os
políticos e economistas não precisam ter receio deste
cálculo bastante delicado, como mostra a experiência;
eles podem contar, às vezes, até com o apoio dos
sindicatos. Também estes pensam, de vez em quando, primeiro
em seus colegas que vivem da produção de agrotóxicos
ou cigarros.
Pelo exemplo dos cigarros, gosto de mostrar como a indústria
e o Estado conseguiram, em cooperação exemplar e
através de décadas, proteger um produto nocivo à saúde
de perdas pesadas no mercado. Ao contrário do caso do amianto,
trata-se aqui de uma obra prima da ars corrumpendi e isto
para um dos artigos de maior consumo popular.
Há quase 40 anos, sabemos definitivamente que fumar significa
um grande risco de câncer do pulmão. Já naquela época,
levantamentos nos EUA mostraram, de maneira inequívoca,
que fumantes inveterados morrem de câncer do pulmão
em número muito maior do que qualquer outro cidadão
e que houve um aumento alarmante de casos de câncer do pulmão.
Um médico berlinense rapidamente espalhou a sensacional
descoberta americana pelo rádio. Imediatamente, um conglomerado
de indústrias de cigarros ameaçou o superintendente
da estação de rádio com a demanda de uma indenização
gigantesca e contestou a seriedade da informação.
O superintendente, por sua vez, ameaçou o médico
de prisão. Não tinha o direito de repetir uma alegação
tão monstruosa através de um meio de comunicação.
Enquanto isso, institutos de pesquisa, discretamente comprados,
desmentiam os resultados da descoberta do câncer causado
por fumo. O público tinha a impressão de que os cientistas
estavam, mais uma vez, em total desacordo — portanto, não
se podia acreditar em nenhum deles.
Finalmente, quando as vozes denunciando o fumo já estavam
ganhando força, um eminente psicólogo internacional
veio socorrer a indústria de cigarros. Com questionários
sutis, ele achou que os fumantes inveterados são, em geral,
bem mais nervosos do que os não fumantes. Prontamente, ele
declarou com astúcia: “as pessoas adquirem câncer
de pulmão devido a seu nervosismo. Que elas também
fumem é mero acaso e não tem nada a ver com o risco
de câncer”.
Ao mesmo tempo, uma campanha publicitária fotografava fumantes
inveterados de 90 anos e jovens campeões olímpicos
fumando intensamente. Este ou aquele cigarro parecia indispensável
para a alegria de viver, potência, resistência e juventude.
Principalmente audácia esportiva e aventuras eram acopladas
sugestivamente ao amor pelo cigarro. Ou seja: somente os quadrados
medrosos se deixam intimidar pelo perigo do câncer. Progresso
significa coragem e disposição para correr riscos.
Os audaciosos cowboys, alpinistas e velejadores dos comerciais
também podem sentir medo, mas eles não se perturbam
e não se privam dos seus cigarros preferidos.
Enquanto isso, o lobby poderoso das indústrias de cigarros
ameaçou os políticos — quando estes não
quiseram mais ficar calados — com cenários econômicos
catastróficos. Inventou-se cigarros com baixo teor de nicotina,
depois com baixo teor de alcatrão e utilizou-se uma mistura
de mentol. Somas consideráveis foram gastas em filmes para
cinema e televisão, em que os protagonistas principais estão
fumando cigarros. Algumas estrelas do esporte receberam presentes
para desistir de uma cura de desintoxicação.
Assim, a frente de defesa política e industrial se manteve
coesa de uma década a outra, até que as grandes indústrias
do fumo tivessem conseguido se expandir para outros ramos, a fim
de digerir, sem dor, as perdas inevitáveis do ramo de cigarros.
Após uma demora colossal, os ministros de saúde se
manifestaram com restrições oficiais, para as quais
há muito tempo já tinham a comprovação
em mãos. Assim, o movimento anti-fumantes foi inevitável
mas, como mostram as estatísticas, na geração
de adolescentes já pouco consegue penetrar. Os cigarros
são um psicofármaco, cujos danos tardios só serão
sentidos num futuro longínquo, que a juventude, devido a
tantos outros riscos, não tem muita vontade de encarar.
Onde existe hoje algo que se pode inalar, comer ou beber sem risco?
Em que lugar o ar está limpo? Aonde a água é potável?
Quantas substâncias químicas engolimos, quando comemos
verduras ou bebemos vinho adulterado? Quantos produtos farmacêuticos
encontramos em cada lingüiça ou bife? O chefe de uma
comissão especial revelou recentemente: “Hoje
nenhum porco ou boi chega ao matadouro sem estar entupido de medicamentos.”
Vamos e venhamos, esse é mais um desses exageros repreensíveis.
Por que não deixar às pessoas a ilusão de
que somente um ou outro criador de gado suíno e bovino desrespeita
os bons costumes?
Entretanto, esta indiscrição também oferece
um consolo. Quando ninguém mais consegue lembrar quais os
alimentos e petiscos que causam câncer, prejudicam o fígado,
coração, rins, medula, sangue e dentes, vai se tornar
indiferente o que comemos e tudo volta a ter sabor. É compreensível
que os médicos não queiram irritar as pessoas com
alertas constantes. Muitos deles também fumam, tomam comprimidos
desnecessários, comem erradamente, bebem demais — não
servem para defender a moral.
Assim como os hospitais universitários e os laboratórios
de pesquisa, também os consultórios médicos
refletem, de maneira exemplar, a cooperação rendosa
com as indústrias farmacêuticas e de equipamento médico.
Para acompanhar a modernidade, milhares de médicos jovens
ficam endividados com a aquisição de aparelhos dos
mais dispendiosos, que eles usam — para conseguir efetuar
o pagamento — em inúmeros casos totalmente desnecessários.
Ao mesmo tempo, eles se esforçam para alimentar cuidadosamente
a maravilhosa fé nos medicamentos. De que outra forma a
indústria farmacêutica poderia lucrar com milhares
de medicamentos, quando a Organização Mundial da
Saúde considera que apenas 200 medicamentos são necessários?
Como podemos reclamar que os médicos se sujeitem às
leis do mercado, do qual fazem parte? Os médicos debitam
ao seguro-saúde, a cada ano, milhões de Euros por
serviços que não realizaram. De acordo com a Aertzte
Zeitung (Jornal Médico), estima-se que de 15 % a 20
% dos médicos da Previdência estejam cobrando demais
ou de forma errada. Se alguém é apanhado, é capaz
de confessar: “Mas todos fazem isso”!
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Fonte: “Die hohe Kunst der Korruption” (A
arte da corrupção), livro do autor Horst-Eberhard
Richter, médico neurologista, psicanalista, psicólogo
social, diretor do Centro de Medicina Psicossomática da
Universidade de Giessen.
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