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Para
melhor uso de medicamentos
Joan-Ramon
Laporte
Muitos
remédios são inúteis.
Sua eficácia
terapêutica
jamais foi comprovada.
Muitos são usados como solução para problemas
difíceis,
que têm
raízes sociais e não podem ser resolvidos com remédios.
Os fabricantes exercem pressão para expandir constantemente
o mercado sem procurar preencher uma
necessidade real
Esses
são alguns alertas que Joan-Ramon Laporte apresenta neste
artigo.
A receita que um médico prescreve para o paciente no final da consulta
deveria decorrer diretamente de considerações sobre diagnóstico
e prognóstico. Infelizmente, isso raramente acontece. Diz-se que muitas
receitas de medicamentos não são “receitas racionais” e
sim “receitas automáticas”. A receita reflete a disponibilidade
dos medicamentos receitados e as condições do trabalho (tempo,
treinamento, equipamento e instalação para diagnóstico
etc.). Reflete também a época, o local e as doenças prevalentes
na região. Além disso, o médico é influenciado pela
informação sobre o medicamento.
Antes de registrar um novo medicamento ou incluí-lo numa relação
de medicamentos, precisamos responder
às seguintes perguntas:
- O
novo medicamento é mais ou menos eficaz do que outros
que estão no mercado? É mais ou menos seguro?
Há necessidade do novo medicamento? Qual o seu custo
comparativo?
- Como
será usado?
- Que
informação será dada aos médicos
que receitarão?
É
preciso considerar
- Muitos
medicamentos são inúteis — seu valor terapêutico
nunca foi comprovado. Outros — geralmente combinação
de duas ou mais substâncias ativas — são
inaceitáveis (isto é, os riscos que apresentam
são maiores do que os benefícios, em qualquer
circunstância). Precisam ser retirados do mercado. Muitas
vezes, medicamentos realmente necessários não
são encontrados no mercado. Em compensação,
medicamentos inúteis ou inaceitáveis são
facilmente receitados e distribuídos.
- Os
medicamentos são freqüentemente usados para encobrir
problemas difíceis, de origem social, que não
podem ser aliviados ou solucionados com remédios.
- Quanto
mais potente for o medicamento, maior o seu potencial iatrogênico
(que pode provocar doença por tratamento médico
errôneo). Há sempre o risco do medicamento ser
ministrado ao paciente errado, na dose errada, mais alta ou
mais baixa, pelo tempo errado ou receitado para fugir de problemas
de ordem social ou psicológica.
- O
uso de medicamentos
é um campo onde os fabricantes exercem pressão
para assegurar a expansão constante do mercado, em vez
de procurar preencher uma lacuna real. Muitos
“medicamentos novos” na verdade não são
reais inovações terapêuticas. Onde falta
informação sobre os medicamentos, esse vazio é preenchido
por propaganda, inevitavelmente tendenciosa.
São
vários os fatores que determinam o tipo e a quantidade
de remédios usados em uma comunidade. Diversos fatores
influenciam o consumo de medicamentos: existência ou falta
de treinamento farmacológico para médicos e pessoal
da saúde; a atitude dos usuários e as pressões
que sofrem; as doenças existentes na comunidade. Vou referir-me
a apenas quatro fatores: a propaganda, as doenças, a oferta
de medicamentos, as prioridades do sistema de saúde e
suas estruturas.
A publicidade
A publicidade é, sem dúvida, um fator preponderante
para o uso irracional e prejudicial de medicamentos. A indústria
farmacêutica gasta de 15 a 25% do seu orçamento em
publicidade. Essa porcentagem é ainda mais alta nos países
do Terceiro Mundo. O conteúdo educativo e a objetividade
da informação prestada pelo fabricante variam muito
de país para país. Muitas vezes as informações
disponíveis no país de origem do medicamento são
mais objetivas do que no exterior, principalmente no Terceiro Mundo.
Tenho visto material de propaganda de certos laboratórios feito
para o Terceiro Mundo que chega a ser criminoso. Longe de possuir qualquer
valor educativo, grande parte do material “informativo” apresenta
o produto como capaz de curar milagrosamente todos os males, exagerando
nas qualidades e minimizando os riscos.
As doenças
Geralmente, supõe-se que o remédio receitado tenha
alguma relação com a doença do paciente — ou
pelo menos com algum sintoma. Isso pode ser verdade em muitos casos.
Entretanto, sob o ponto de vista epidemiológico, isso nem
sempre convence. Vejamos os seguintes exemplos:
- estudos
realizados em alguns países da Europa sobre o uso em
escala mundial de medicamentos contra hipertensão e
diabetes, indicam que o consumo de medicamentos anti-hipertensivos
e antidiabéticos não corresponde à prevalência
dessas doenças;
- é interessante
notar a grande variação de um país para
o outro nos gastos per capita com medicamentos, principalmente
se consideramos a venda de alguns medicamentos de eficácia
não comprovada.
Oferta
de medicamentos
O número de remédios comercializados varia muito
de país para país.
“Entretanto, nunca ficou provado que um número infinito de
medicamentos seja mais benéfico para a saúde pública do
que um número restrito. Pelo contrário, a existência de
muitos medicamentos pode causar confusão em todos os níveis da
corrente terapêutica, representando desperdício de dinheiro e
de mão-de-obra.” Este conceito, formulado por Lunde, em 1979,
continua sendo a pedra angular de uma política sadia para os medicamentos.
Quantidades excessivas de medicamentos causam confusão no
registro, congestionam o controle nos portos de entrada, dificultam
o controle de qualidade e a avaliação das necessidades
reais nos diversos níveis do sistema de saúde. Causam
confusão logística, agravando as desigualdades na
distribuição (por exemplo, entre a zona urbana
e rural). Fica mais difícil controlar a venda e distribuição
de medicamentos só permitidos sob prescrição
médica e o médico que prescreve os medicamentos também
fica confuso. Sabemos que é preferível usar e
conhecer bem um número limitado de medicamentos do que usar
muitos remédios sobre os quais pouco se sabe. O uso
de um número
limitado de medicamentos bem conhecidos facilita o seguimento
e ajuda a avaliar os benefícios e efeitos colaterais nos
pacientes.
Números elevados de medicamentos causam confusão
nos pacientes, principalmente quando não são usados
os nomes genéricos e o mesmo produto tem mais de um nome
comercial. Numa pesquisa em Barcelona, encontrou-se um senhor idoso
que tomava todos os dias, três produtos diferentes à base
de fenilbutazona (usada no tratamento da artrite). Cada um desses
medicamentos tinha nome comercial diferente. Quando perguntado
porque tomava cada remédio, ele respondeu que o terceiro
era para dor de estômago!
Estrutura e prioridades do sistema de saúde
Os recursos econômicos e humanos destinados ao serviço
de saúde são os principais fatores que afetam o consumo
de medicamentos. Poderíamos pensar que, quanto maior o volume
de recursos, maior será o consumo de medicamentos. Mas
nem sempre isso é verdade. Os países nórdicos
gastam de 7 a 9% do orçamento de saúde com medicamentos.
Em pequenos países da África, esse gasto sobe para
60%. Nesses países os medicamentos constituem (sem muito
sucesso) um substituto para outras formas de assistência à saúde.
Existem ainda três outros fatores importantes que influenciam
o consumo de medicamentos. A proporção dos gastos
entre o setor público e o setor privado, entre a atenção
primária e a área hospitalar especializada, bem como
a existência ou a falta de programas específicos de
combate às doenças. Damos, a seguir, um resumo das
principais questões:
- Existe
um programa de medicamentos essenciais? O programa atinge todos
os segmentos da sociedade ou apenas alguns? Destina-se apenas
à atenção primária ou é mais
abrangente? Inclui o setor privado? Quais as conclusões
e obstáculos encontrados na aplicação do
programa?
- Quais
as leis que regem a indústria de medicamentos? Quais
os regulamentos sobre registro e controle dos produtos?
- Como é organizada
a distribuição dos medicamentos?
- Existe
treinamento específico destinado aos responsáveis
pelo serviço de saúde para a avaliação
de medicamentos?
- Existe
algum setor na universidade que participa de treinamentos e
pesquisas para apoiar as diretrizes nacionais sobre medicamentos?
- O
pessoal de saúde recebe um formulário ou manual
que ajuda a decidir sobre a terapia correta e que indica
substitutos para falta de determinados medicamentos?
As
respostas a essas perguntas permitem avaliar onde existe bom
ou mau uso de medicamentos.
De acordo com a OMS é indispensável avaliar os seguintes
elementos
- Uso
de medicamentos no sistema de saúde: o
que leva à prescrição de determinado
medicamento? Como se chegou ao diagnóstico? Quais
os motivos para a seleção de determinado
medicamento, dosagem e modo de ministrá-lo? O paciente
foi informado a respeito da sua doença e do tratamento?
Foi feito algum seguimento?
- Uso
do medicamento fora do sistema de saúde: como
o medicamento
é visto pelo paciente, sua família e sua comunidade?
Quais efeitos colaterais ocorreram?
O
uso correto de medicamentos é muito mais do que um programa
de medicamentos essenciais. Oferecer os medicamentos corretos
não garante o uso correto.
Não basta que um país elabore uma lista de medicamentos
essenciais. É necessário também que elabore
uma lista de medidas essenciais, se quiser deixar de ser “dependente
de medicamentos”. Essas medidas são: treinamento em
farmacologia clínica e avaliação dos medicamentos;
controle da propaganda da indústria farmacêutica;
campanhas educativas para o pessoal da saúde e a população
em geral; distribuição de formulários explicativos;
desenvolvimento de epidemiologia “nacional” de medicamentos;
estudo das doenças provocadas por medicamentos; organização
de redes de avaliação de medicamentos.
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Joan-Ramon Laporte é professor e chefe da divisão de Farmacologia
Clínica da Universidade Autônoma de Barcelona, Espanha. Artigo
publicado no “Development Dialogue”, 1985: 2 |
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