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Medicina em crise imprimir
 

Medicamentos: bênção ou maldição?

Helmut Wagner

Nos últimos anos, os efeitos colaterais graves — freqüentemente mortais — de numerosos medicamentos considerados inofensivos vieram a público e provocaram considerável intranqüilidade e insegurança na população.

Não existe medicamento sem efeitos colaterais
No 24º Congresso de Medicina Atual de Stuttgart, o Dr. Paris, diretor do Conselho de Medicina de Nordwürttemberg, admitiu que não existe medicamento sem efeitos colaterais. Essa constatação é, na verdade, conhecida por todos os médicos mas, pela primeira vez, foi anunciada por uma autoridade médica e comentada na imprensa. Pela primeira vez, o Ministério Público de Stuttgart está questionando médicos devido à prescrição prolongada de analgésicos, soníferos e tranqüilizantes e à dependência provocada por esse tratamento. Paris também anunciou processos contra médicos que prescrevem medicamentos desnecessariamente. Com isso, está se rompendo um tabu: procura-se impedir a prescrição excessiva, da qual também participam a indústria farmacêutica (que gasta anualmente bilhões em propaganda) e os doentes, que constantemente exigem novos produtos. Processos judiciais por medicação crônica com produtos contra reumatismo, laxantes, cortisonas e outros virão a seguir. Os médicos deverão reavaliar sua relação com os medicamentos e refletir sobre benefícios e prejuízos. Deverão estudar até que ponto os medicamentos podem ser substituídos por medidas dietéticas e outras terapias naturais e inofensivas.

Aumento dos medicamentos — sem aumento da saúde
Acompanhei, durante seis décadas, toda a evolução da terapia com medicamentos. As pessoas não se tornaram mais saudáveis. Vivem mais tempo, mas freqüentemente já sofrem de doença crônica vinte anos antes de morrer.

No lugar de doenças infecciosas, temos doenças da civilização, como as doenças cardiovasculares, diabetes, bronquite, cirrose hepática e rim atrofiado, alergias e câncer, assim como acidentes de trânsito.

Efeitos colaterais a que não damos importância
O impacto dos primeiros grandes sucessos e a imensa propaganda da indústria farmacêutica provocaram uma supervalorização dos medicamentos. Parecia ser possível curar toda e qualquer doença com eles. Houve uma produção maciça de mais e mais novos medicamentos, testados em homens e animais e receitados aos milhões. Efeitos colaterais foram diminuídos ou atribuídos a outras circunstâncias. Do “receituário de bolso” que utilizava como residente no início dos anos 30 — uma brochura pequena e fina, relacionando menos de dez produtos farmacêuticos ao lado de algumas fórmulas para manipulação, chegamos ao compêndio médico de milhares de páginas, ampliado ano após ano.

Poucos produtos são suficientes
A Organização Mundial de Saúde publicou uma lista de medicamentos essenciais com menos de 300 medicamentos para cobrir o absolutamente necessário. Entretanto, os médicos prescrevem anualmente milhões de medicamentos. Podemos acrescentar milhões de medicamentos adquiridos sem receitas. A maioria é consumida por pessoas com mais de 65 anos, que lotam os consultórios médicos com seus problemas geriátricos, geralmente incuráveis. 30% daqueles que têm mais de 65 anos tomam, diariamente, mais de 5 medicamentos e apenas 2,5% vivem sem medicação. Também mulheres grávidas recebem medicamentos, apesar do risco de defeitos congênitos, que aumentaram enormemente nos últimos anos.

Mania de prescrição
Já em 1949, quando ainda havia menos de mil medicamentos químicos, o professor Munk falava de uma “confusão no pensamento médico devido ao excesso inédito de prescrições.” A prescrição exagerada tornou-se moda perigosa. Poucos pacientes deixam o consultório sem receita na mão. O relacionamento médico-paciente transformou-se num contato padronizado e manipulativo, no qual o sintoma, automaticamente, provoca um tratamento sintomático. Esse tratamento — seguindo o espírito da época — é químico. Pacientes que constantemente tomam dez medicamentos diferentes ao mesmo tempo não são raridade. O recorde na minha experiência é de uma paciente a quem prescreveram 28 medicamentos para uso constante e um aposentado de 75 anos que, ao morrer, deixou nos armários e nas gavetas 120 embalagens abertas de medicamentos.

Saudável por largar os medicamentos
Como assistente do Prof. Friedrich von Müller, em Munique, lembro como o catedrático ficava pensativo junto ao leito de um paciente que estava piorando dia a dia, apesar da medicação. Ele ordenava, sem mais nem menos: “Vamos tirar todos os medicamentos”. Às vezes, o paciente se restabelecia nos dias seguintes e recuperava a saúde.

Médicos e pacientes tornaram-se vítimas de uma dependência de medicamentos que ameaça enterrar os remédios realmente necessários sob uma avalanche de produtos desnecessários e perigosos.

Tarefa principal — a prevenção
A principal tarefa da medicina futura precisa ser a prevenção das doenças, a começar por uma reforma do estilo de vida, uma reforma dos problemas sociais, como o stress no trabalho e no lazer, e, principalmente, uma mudança na alimentação errada. Junto com os vícios do fumo e do álcool, essa alimentação transformou-se na causa principal das doenças da civilização. É indispensável que a educação para a saúde comece nas escolas — até no jardim de infância — e que continue na faculdade e nas empresas. O êxito da prevenção planejada iria reduzir drasticamente o consumo de medicamentos e, conseqüentemente, a sua produção. A destruição do meio ambiente iria diminuir na mesma proporção. Os médicos poderiam se dedicar a uma medicina tratando do homem integral em sua realidade psicossomática e não apenas dos sintomas.

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Fonte: “Der Naturarzt” nº 12 de 1990. Dr. Wagner é autor de diversos livros como “Ernährung als Krankheits — und Heilfaktor” (Alimentação como fator de doença e cura).

Efeitos colaterais

Analisando os efeitos colaterais dos medicamentos indicados no famoso manual americano de medicamentos — o Physicians' Desk Reference —, um estudo recomendou que os médicos generalistas evitem receitar medicamentos novos quando alternativas mais antigas, eficazes e seguras estão disponíveis. Nos EUA, quase 20 milhões de pacientes estavam tomando pelo menos um dos cinco medicamentos que a FDA tirou do mercado entre setembro de 1997 e setembro de 1998. Três destes cinco medicamentos estavam no mercado há menos de dois anos. Sete medicamentos aprovados desde 1993 e posteriormente retirados do mercado contribuíram para 1002 óbitos. (JAMA, 2002)

Veja também
www.adbusters.org/campaigns/tvturnoff/ (Adbusters)


FALANDO DE MEDICAMENTOS

Klaus Th. Finkam

Editora Paulus
4ª ed, 63p ilustradas

FALANDO DE MEDICAMENTOS Roteiro para
um curso
sobre o abuso
de medicamentos

Oliver Wendell Holmes disse, em 1861,
"se todos os medicamentos fossem jogados ao mar,
isso seria uma benção para a humanidade
e um desastre para os peixes"

 
 
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