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O
ser humano pode ser retalhado?
Mathias
Jung
Opiniões
sobre a medicina de transplantes
O
que significa o diagnóstico "morte cerebral"?
Até que ponto está "morto"
o ser humano do qual ainda podemos retirar órgãos
vivos como o coração, o pulmão e o fígado?
O ser humano pode ser dividido em cérebro/consciência
e órgãos do corpo? O corpo não tem consciência?
Quem pode autorizar a retirada de órgãos? O debate
em torno do transplante de órgãos é um debate
em torno dos valores fundamentais da existência humana. No
livro "Ungeteilt sterben"
(veja no fim do texto) a autora
apresenta uma valiosa contribuição para o tema.
Os depoimentos de onze pessoas são de arrepiar.
O vereador e teólogo Dieter Emmerling, de Frankfurt, descreve
sua experiência com o diagnóstico "morte cerebral".
O médico chefe da clínica pediu-lhe a autorização
para retirar os órgãos de sua mulher, internada na
UTI. A justificativa:
"O cérebro já estava 95% morto no momento da
internação e a tendência era piorar".
Emmerling sentiu um sério conflito de consciência:
o transplante de órgãos seria uma possível
salvação para outro doente em estado grave ou um
sofrimento para sua mulher? Ela estaria mesmo morta?
À noite, ao sair, disse para a mulher, ligada aos aparelhos: "Lilo,
agora vou para casa". As duas curvas no monitor deram um salto repentino
para cima e para baixo, até os limites da tela. "Parecia um grito:
Você não pode deixar-me sozinha agora! — Não foi
o aparelho que gritou, foi minha mulher que gritou!".
SDieter Emmerling estava presente quando retiraram o tubo do respirador
da boca de sua mulher: "Lilo morta? Ela continuou a respirar
sozinha sem tubo e sem aparelho. Durante dois dias e duas noites,
amigas e amigos se revezaram junto ao seu leito". Lilo morreu
no dia 30 de outubro às 9h e 15min.
Continua Emmerling: "A raiva cresceu dentro de mim; raiva pelo
que tinha acontecido. Meu pedido enfático — 'Deixem
minha mulher morrer com dignidade!'
— havia sido desrespeitado? Haviam evitado que ela morresse,
para manter seus
órgãos vivos para um transplante?"
A socióloga da área médica Gisela Wuttka
confessa: "Há muito
tempo rasguei meu cartão de doadora de órgãos.
Não é o medo de uma morte ligada a máquinas
que domina meu pensamento. É a convicção de
que ainda não estou morta quando é feito o diagnóstico "morte
cerebral'".
O livro não aborda apenas os problemas relacionados à doação,
mas narra também a experiência dos parentes de pessoas
transplantadas.
Gerhard Essler, tabelião e advogado, recebeu em dezembro
de 1992, na clínica Universitária de Hamburgo, um
novo fígado. Os motivos pareciam prementes. Gerda Essler,
sua esposa, conta: "Esse transplante de fígado era nescessário
porque meu marido — devido a uma hepatite e posterior cirrose
do fígado, da qual já
sofria por vinte anos — só tinha semanas ou meses
de vida". Prometeram ao homem de 63 anos uma recuperação
completa.
O transplante durou doze horas. Devido a fortes hemorragias,
a cavidade abdominal foi preenchida com panos quentes. Isso exigiu
uma nova operação no dia seguinte, que durou seis
horas. Novamente ocorreram hemorragias gravíssimas. Gerda
relata:
"Quando vi meu marido após a segunda operação
quase desmaiei. Uma enfermeira me amparou. Meu marido, com os olhos
arregalados de terror, parecia ter passado pelo inferno ou ter
sido assassinado, esquartejado e recosturado".
Gerhard Essler estava consciente, porém completamente paralisado.
Respirava por meio de aparelhos. Após cinco dias, perdia
temporariamente a consciência. Depois de 11 dias, foi operado
pela terceira vez. No 13º dia ele morreu na UTI. Dois outros
transplantados do fígado estavam sofrendo na UTI de maneira
igualmente cruel e sem esperança.
Gerda continua: "Só quando meu marido já estava
morrendo, um dos médicos da UTI me disse que deveria ficar
feliz com a morte dele, pois isso seria melhor do que a vida com
um fígado novo. Isso não seria vida, apenas vegetar,
com medo constante da morte, devido a uma rejeição
ou infecção".
A clínica remeteu ao seguro-saúde de G. Essler uma
conta no valor de 115 mil dólares. Haviam prometido a cura
ao doente.
Gerda faz um resumo de sua experiência no hospital: "Depois
de acompanhar durante duas semanas o martírio desses três
transplantados do fígado, sou da firme opinião que
não podemos expor um ser humano a uma tortura dessas, assim
como não devemos maltratar animais."
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Fonte: Gesundheitsberater 8/1996.
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UNGETEILT
STERBEN
Kritische Stimmen zur Transplatationsmedizin
Morrer sem ser retalhado. Críticas da medicina
de transplantes
Gisela Lermann (org)
Lermann,
Mainz, Alemanha, 1996,
2ª ed ampliada, 167 p |
STERBEN
AUF BESTELLUNG
Fakten zur Organentnahme
Morte por encomenda
Retirada de órgãos - fatos
Mathias Jung e Ilse Gutjahr
EMU-Verlag,
Lahnstein,
1997,175 p |
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