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Desenvolvimento e
desnutrição
Pennie Bardsleu,
Alentejo/Portugal
Aqui
no Alentejo, província agrícola que se estende pelo sul de Portugal e
perfaz um terço de todo o país, a maioria das comunidades perdeu dois
terços de sua população nos últimos trinta anos. Em distritos como Mertola,
vilarejos foram oficialmente fechados, porque os habitantes se mudaram ou
morreram. O distrito de Odemira (o maior da Europa), tem o maior índice de
suicídios do mundo (61 por 100.000 habitantes).
A razão? As comunidades agrícolas aqui sofrem as mesmas ameaças da
globalização que em outros lugares, só que piores. Tradicionalmente, as
fazendas arborizadas da área têm estreita ligação com o ambiente natural
que as circunda, com um mosaico de diferentes formas de utilização da terra
e habitats
que produzem alimentos silvestres para pessoas e animais, garantindo a
diversidade para as comunidades locais e para a vida animal. No centro
desse sistema está o Quercus
suber ou sobreiro (árvore cultivada para a extração de
cortiça). Sua casca é cuidadosamente retirada e utilizada para a confecção
de rolhas para garrafas de vinho — uma indústria que requer muita
mão-de-obra. Tradicionalmente, empregava milhares de pessoas e era boa
fonte de renda para as próprias comunidades.
Agora tudo isso está mudando como resultado de programas de investimento em
infra-estrutura e esquemas de "desenvolvimento" subsidiados pela
União Européia (que impõe o desmatamento para construção de barragens e
estradas), de empresas madeireiras, que transformam grande parte da área em
uma enorme plantação de eucaliptos, e de multinacionais americanas, que
estão convencendo os fabricantes de vinho a utilizar suas rolhas de
plástico.
Os resultados eram previsíveis — migração urbana em massa, esgotamento dos
lençóis freáticos, queimadas colossais (um milhão de hectares de florestas
de pinho e eucalipto transformou-se em chamas na última década) e o lince
ibérico foi declarado a espécie de felinos mais ameaçada do mundo. Neste
processo, o maior proprietário de terras em Portugal é agora uma companhia
madeireira e alguns americanos ricos tornaram-se ainda mais ricos.
Era difícil encontrar um melhor exemplo de co-existência harmoniosa entre o
homem e a natureza ou um sistema agrícola mais sustentável no mundo. Mas,
sem dúvida, as mais recentes estatísticas internacionais mostrarão que
Portugal está mais "desenvolvido".
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