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Catadores
reunidos em São Leopoldo
Francisco
Rojas
Cerca
de 1050 catadores de lixo latino-americanos estiveram reunidos
no
II Congresso Latino Americano de Materiais Recicláveis,
realizado entre os dias 23 e 25 de janeiro, em São Leopoldo,
RS.
O tema foi: “Não há fronteiras para os que
exploram.
Não deverá haver para os que lutam”
“O
principal ganho foi moral, pois, na rua, ficamos expostos às
drogas e à violência e, quando estamos organizados,
não”, diz Alexandro Cardoso, que, desde seus
18 anos, encontrou na atividade de catador de materiais recicláveis
uma solução para o desemprego. Depois que começou
a trabalhar com o MNCR, Movimento Nacional de Catadores de
Materiais Recicláveis, a vida de Cardoso melhorou muito. “Agora
tenho cartão de banco, cheque, comprovante de renda
e até fundo de mini-projetos”.
Antes de ingressar no Movimento, Cardoso trabalhava nas ruas de
Porto Alegre catando lixo reciclável por cerca de 12 a 14
horas por dia, com um ganho mensal de R$200,00. Hoje, aos 25 anos,
trabalha 7 horas por dia e ganha R$400,00. O catador lembra que,
com a profissão, o ganho não é só econômico
e social, mas também ambiental:
“a campanha de rua tem seu foco principal no meio ambiente,
pois todos os materiais que poluem o meio são recicláveis".
Foto:
Francisco Rojas

Catadores em marcha durante a abertura do VFSM
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Hoje
Cardoso não é apenas catador, mas faz parte do
quadro de militantes do Movimento e considera que iniciativas
como o II Congresso “são formas de capacitar-se
e de ter mais acesso a informações e subsídios
que necessitamos para lutar no dia-a-dia da militância” diz
o jovem, que arrisca até
a fazer uma análise da política internacional: “os
Estados Unidos não têm fronteiras para sua exploração
e nós também não teremos para lutar”,
explica, referindo-se ao tema do Congresso.
A história de Suzano Pereira Alves também é um
exemplo de que um trabalhador organizado pode melhorar suas condições
de vida. Catador há 27 anos, pai de 7 filhos e no Movimento
desde 2002, Alves trabalha no lixão do Distrito Federal,
em Brasília, separando materiais recicláveis para
uma das quatro
áreas que sua base orgânica possui. “Apesar
do dia-a-dia ser duro, me sinto feliz, pois trabalho quando quero
e só Deus manda em mim. Emprego não tem e, quando
tem, o patrão não dá valor ao empregado. Então
resolvi trabalhar com lixo, pois eu mesmo sou meu patrão”,
avalia. Depois de ingressar no Movimento, Alves elevou sua renda
de maneira relevante.
Dois
milhões em todo o país
No Brasil há cerca de dois milhões de catadores de
lixo reciclável, segundo estimativa feita pelo MNCR. Desses,
apenas 60 mil fazem parte de movimentos que organizam o trabalho
e a luta pelos direitos dos catadores. “Construir grupos
em bases orgânicas de acordo com os princípios e objetivos
da classe
é uma das vantagens que o trabalhador alcança ao
se organizar”, acredita Alexandre Camboim, da Coordenação
Nacional do MNCR.
De acordo com ele “o movimento é a base e a mobilização
leva a um conjunto de conquistas”. Afirma, ainda, que,
com “estruturas
e ferramentas de trabalho, o catador consegue melhorias nas condições
de vida”. Para o militante, esta melhoria só é possível
depois que o catador “rompe com o atravessador e acessa
diretamente a indústria” (de reciclagem) com
a qual vai negociar, por meio de contratos, melhores condições
de venda dos materiais recicláveis. Essas conquistas não
são apenas econômicas, explica Camboim, mas também
de “fortalecimento da dignidade humana em relação à sociedade”.
Troca de experiências
De acordo com Roseli Rodrigues Souza, da Coordenação
Sul São Paulo do MNCR, trocar experiências, fortalecer
a solidariedade, a articulação de luta por políticas
publicas, “que garantam os direitos e a legalização
dos catadores, além de capacitar e formar o trabalhador”,
foram os principais objetivos do II Congresso, que teve seminários
que discutiram temas como: “Organização
dos Catadores no Continente Sul Americano; Protocolo de Kyoto;
Alca e o impacto na Vida dos Catadores; Políticas Nacionais
de Resíduos Sólidos”, entre outras atividades
culturais.
Os avanços das discussões foram muitos, explica a
coordenadora do movimento:
“conseguimos juntar e organizar os grupos nas vendas,
na separação e principalmente na relação
entre os seres humanos, o que é muito importante”,
orgulha-se. Ela lembra que, esse tipo de evento, é a base
para dar “consciência de classe, formação
e capacitação para o catador que sai pelas ruas com
seu carrinho, catando e conscientizando a sociedade da importância
da reciclagem e da coleta seletiva”, explica.
Foto:
Francisco Rojas

O
Brasil tem dois milhões de catadores, mas apenas 60 mil
são organizados |
Delegações
latino-americanas
O II Congresso Latino Americano de Catadores reuniu cerca de 1050
pessoas e contou com a participação de delegações
de países como Argentina, Uruguai, Paraguai, Chile, Bolívia,
México e Peru, além de grupos da Tanzânia,
Moçambique e Cuba.
Para Exequiel Estay, representante da delegação do
Chile, “o primeiro objetivo do Movimento é lutar
para que as autoridades reconheçam os catadores como pessoas
e trabalhadores e não como mendigos. Por isso exigimos
respeito”. Estay é coordenador de um grupo de
35 catadores, que reúnem, separam e vendem os materiais
recicláveis na cidade de La Serena, que fica a 600 quilômetros
ao Norte de Santiago do Chile.
Após
discussões, debates e trocas de experiências, o
Movimento Nacional de Catadores de Materiais Recicláveis
(MNCR) fechou o encontro com um documento, chamado de “Carta
Final”,
que afirma: “O movimento saiu fortalecido, pois aprofundou
a solidariedade entre as organizações de catadores
da América Latina. Assim, poderemos lutar juntos por uma
sociedade em que todas as pessoas vivam com dignidade, em que
o trabalho coletivo construa uma economia solidária, que
sirva de alternativa
à economia capitalista, baseada na exploração
dos trabalhadores e do meio ambiente”.
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