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Afinal, quando começaremos
a ouvir as crianças
que vão herdar o nosso mundo?
Em seu discurso na cerimônia de distribuição
do Prêmio Nobel Alternativo de 2002,
Jakob von Uexkull fez um comovido apelo ao mundo
e seus dirigentes para que dessem atenção às
crianças
e parassem
com a destruição do planeta que elas irão herdar
Nos antigos reinos da Índia, o “Conselho dos Videntes
do Futuro” era a mais importante autoridade. Hoje, precisamos
de um órgão semelhante, em âmbito global, que
represente nossos valores e responsabilidades como cidadãos
do mundo.
Gostaríamos que aqueles que viveram neste planeta antes
de nós tivessem queimado tanto carvão e petróleo,
deixado quantidades imensas de lixo perigoso e exaurido os recursos
naturais e a biodiversidade da mesma forma que fazemos?
Se a resposta for não, que direito temos de agir assim?
Será que podemos olhar nos olhos de uma criança e
justificar o que fizemos e continuamos fazendo todos os dias? O
que estamos esperando? Onde está a nossa coragem política?
Onde estão os líderes com a firmeza de espírito
necessária para pedir que todos façam um pequeno
esforço a fim de garantir o futuro de nossos filhos e nossa
dignidade? Cada dia que adiamos a realização desse
esforço, aumentam os riscos futuros.
Não há desculpa para esperarmos. Temos o privilégio
de viver no momento mais empolgante da história da humanidade.
Pessimismo e inércia constituem uma traição
imoral pela qual as gerações futuras não nos
perdoarão...
Nesses tempos de dúvida e confusão, desenvolver soluções
adequadas confere poder. O Prêmio Nobel Alternativo é um
elemento- chave dessa nova estrutura de poder global. É um
prêmio mundial para o qual toda e qualquer pessoa pode nomear
ou ser nomeada. Cobre todas as áreas onde a reforma é urgente
e as soluções — projetos de esperança — existem.
Não busca controvérsia, mas, quando outras instituições
e prêmios não conseguem cumprir sua responsabilidade,
procura preencher a lacuna — abre olhos e portas. Contando
com pouquíssimos recursos, na maioria das vezes realça
os principais desafios que enfrentamos e os caminhos a seguir.
Esse prêmio procura ajudar-nos a redescobrir nosso lugar
na história da vida antes que seja tarde demais.
Nossos dirigentes ideólogos provocam penúria na África
ao forçarem países pobres, como Malavi, a acabar
com os subsídios aos alimentos e à agricultura — enquanto
a União Européia e os Estados Unidos continuam mantendo
os subsídios em seus países. O que podemos responder
a nossos filhos quando eles nos perguntam: "Como, em um mundo
de fartura, onde somos estimulados diariamente a consumir mais,
podemos permitir que milhões de seus irmãos e irmãs
morram todos os anos de fome e desnutrição?"
Não é de estranhar que nossos filhos rejeitem toda
essa ordem mundial. As declarações feitas em recentes
conferências internacionais de jovens são muito instrutivas.
A Earth Summit II Youth Declaration (Declarações
da II Conferência de Jovens em Nova York, 1997) constatou
que os participantes mostravam um sentimento de desespero devido
ao fracasso daqueles que ocupam o poder em cumprir suas promessas
feitas no Rio de Janeiro. Esses compromissos exigiam cortes no
consumo dos ricos para ajudar os pobres e reduzir as pressões
sobre o meio ambiente. A maior e mais representativa reunião
de jovens em preparação para Johannesburg (Borgholm,
Suécia, maio de 2001) usou termos ainda mais contundentes.
O documento final exigia, entre outras providências, “justiça
global por meio do acesso eqüitativo a todos os recursos
naturais... o poder para impor ações sustentáveis
... reconhecimento da dívida ecológica dos ricos...
o fim da globalização econômica neoliberal...
e o fim imediato da produção, testes e venda de organismos
geneticamente manipulados”.
Há sinais de que, cada vez mais, esses jovens falam em nome
da maioria. Nos Estados Unidos, a proporção de pessoas
que sentem a necessidade de crescimento espiritual em suas vidas
aumentou de 20% em 1994 para 78% em 1999, mas as instituições
religiosas não se beneficiaram dessa tendência. “Podemos
apenas orientar veladamente”, disse-me recentemente
um eminente bispo inglês.
Penso que existem modos mais construtivos. Se realmente não
passamos de máquinas egoístas, geneticamente programadas,
em um universo que não faz sentido, como os “peritos” afirmam,
então a nossa situação é realmente
desesperadora. Mas, bem no íntimo, sabemos que somos muito
mais do que isso — e que podemos fazer melhor. Precisamos
assegurar que nossas instituições, regulamentos e
canais de informação priorizem nossos valores mais
profundos, em vez de celebrar a ganância consumista. Precisamos
ouvir as crianças.
Severn Cullis-Suzuki, que tinha 12 anos na época, foi muito
aplaudida quando assim se dirigiu aos representantes de todo o
mundo, reunidos na conferência do Rio há dez anos: “Vocês
nos ensinam na escola a não brigar, a resolver as coisas,
a respeitar os outros, a arrumar a bagunça que fazemos,
a não fazer mal a outras criaturas, a dividirmos o que temos,
a não sermos gananciosos. Então, por que vocês
fazem as coisas que dizem que não devemos fazer?”
Quando os prêmios deste ano foram anunciados, perguntaram-me
sobre sua importância em relação às
ameaças de guerra no Oriente Médio. Pensei, então,
nas esperanças e expectativas que esses prêmios criam.
Os prêmios deste ano dão um claro sinal de que existem
alternativas pacíficas. Antes de tudo, precisamos reduzir
nossa dependência — eu diria quase que de toxicômanos — em
relação ao petróleo barato. A transição
para uma ordem global baseada em energias renováveis é a
principal prioridade moral dos nossos tempos, não só para
preservar as gerações futuras, como também
para evitar uma era de conflitos violentos em torno de recursos
naturais.
Está na hora de superarmos nosso medo das mudanças
estruturais necessárias à transição
para novas fontes de energia e reconhecermos os muitos benefícios
ecológicos, culturais e humanos dessas mudanças.
Os recursos renováveis oferecem um futuro mais seguro, mais
saúde, menos conflitos, empregos novos e interessantes,
revitalização da zona rural, economias locais e regionais
estáveis.
Os combustíveis fósseis que usamos hoje desaparecem
para sempre (ou, no mínimo, por milhões de anos).
Com as energias renováveis acontece o contrário:
a energia solar que não usamos ontem foi desperdiçada
e não pode ser usada hoje ou amanhã. Pelo menos por
este motivo, todos aqueles que detêm o poder decisório
têm obrigação de acabar agora com os privilégios
políticos e econômicos das fontes de energia convencionais. É hora
de acordar!
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Fonte: Cornerstones, maio 2003
Jakob von Uexkull, fundador da Right Livelihood Awards
Foundation que distribui o Prêmio Nobel Alternativo e ex-membro
do Parlamento europeu, hoje lidera um projeto diretamente focalizado
nos direitos e interesses das crianças e gerações
futuras: a iniciativa de criar um Conselho para o Futuro do Mundo.
Planejado para ser um fórum popular de debates e liderança
sobre valores humanos e mudanças sociais, o Conselho para
o Futuro do Mundo pretende unir as atividades das sociedades
civis em todo o mundo.
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