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Escolas para o
século XXI
David Orr
Os jovens deverão saber como
criar uma civilização
que funcione com
energia solar, conserve a biodiversidade,
proteja solos e
florestas,
desenvolva
empreendimentos locais sustentáveis
e repare os estragos
infligidos à Terra.
Para oferecermos essa
educação ecológica,
precisamos transformar
nossas escolas e
universidades.
Na sociedade
industrial, a grande maioria considera o sistema educacional, do primário
ao doutorado, caro demais, maçante e pouco eficaz. Acham que este precisa
de uma reforma radical, mas não sabem como proceder. Uns afirmam que a
falha se deve à falta de verbas para laboratórios, bibliotecas, equipamentos,
salários e novas instalações — ponto de vista defendido, obviamente, por
educadores profissionais. Do outro lado, estão aqueles que defendem o
abandono de grande parte do sistema atual, para criar um sistema de escolas
organizadas como empresas.
Ambos concordam, porém,
quanto aos objetivos básicos da educação: primeiro, equipar a sociedade com
uma força de trabalho de “categoria mundial” para competir com vantagem na
economia global e segundo, fornecer a cada indivíduo os meios para
progredir ao máximo.
No entanto, existem motivos melhores para repensar a
educação, ligados às questões de sobrevivência humana que dominarão o mundo
no século XXI. A geração que hoje está estudando terá que fazer aquilo que
nossa geração não conseguiu ou não quis fazer: estabilizar a população
mundial, fixar e depois reduzir a emissão de gases que ameaçam mudar o
clima — proteger a diversidade biológica, reverter a destruição de
florestas e conservar o solo, cuja erosão diária atinge milhões de
toneladas.
As gerações futuras precisam aprender a utilizar melhor
a energia e os materiais disponíveis. Precisam aprender a usar a energia
solar sob todas as suas formas. Precisam eliminar a poluição e o
desperdício. Precisam aprender a administrar recursos renováveis. Precisam
iniciar a imensa tarefa de restaurar, da melhor forma, os danos causados à
Terra nos últimos 200 anos de industrialização. E tudo isso precisa ser
feito, enfrentando as iniqüidades sociais e raciais. Nenhuma geração teve
que encarar tamanho programa de trabalho. Continuamos, porém, a
educar nossos jovens como se não houvesse nenhuma emergência
planetária. Mas, a crise que enfrentamos é principalmente uma crise da
mente, da percepção e dos valores — portanto, um grande desafio para as
instituições que formam mentes, percepções e valores. Um desafio
educacional.
Continuando com a mesma educação, que nos permitiu
industrializar a Terra, somente vamos piorar a situação. Isso precisa ser
dito com ênfase, porque a crise ambiental não é provocada principalmente
por pessoas ignorantes, sem escolaridade. É provocada por pessoas de boa
formação que, segundo Gary Snyder, “ganham rios de dinheiro, vestem-se impecavelmente,
formam-se nas melhores universidades, apreciam pratos finos e lêem bons
livros, enquanto orquestram investimentos e leis que arruínam o mundo”. São homens e mulheres com diplomas universitários, educados
para pensar que dominar a natureza é nosso direito legítimo. Não estou
querendo ir contra o ensino, mas falar a favor do tipo de ensino que
prepara as pessoas para um estilo de vida apropriado a um planeta com
biosfera sujeita às leis da ecologia e da termodinâmica.
As habilidades, aptidões e atitudes necessárias para
industrializar a Terra não são necessariamente as mesmas que vamos precisar
para curar a Terra ou para estabelecer economias e comunidades
sustentáveis. Os grandes desafios ecológicos requerem uma alteração das
matérias, do sistema e dos objetivos do ensino, em todos os níveis.
Entretanto, o historiador Jaroslav Pelikan, da Universidade de Yale, tem
dúvidas quanto à capacidade da universidade para enfrentar esta crise, que
não só é ecológica e tecnológica, como também educacional e moral.
Para construir uma ordem mundial sustentável,
precisamos desmontar o frágil andaime de idéias, filosofias e ideologias
que constituem o currículo escolar moderno. Isso requer cinco medidas.
Primeiro, precisamos desenvolver verdades mais abrangentes e ecológicas. Os
arquitetos da visão atual que temos do mundo, principalmente Galileu e
Descartes, consideravam tudo o que podia ser pesado, medido e somado, mais
verdadeiro do que aquilo que não pode ser quantificado. Em outras palavras,
se não podia ser quantificado, não contava. A filosofia cartesiana era
cheia de tropeços ecológicos, que os discípulos de Descartes desenvolveram
ao grau máximo. Sua filosofia separava o homem do mundo natural, despia a
natureza do seu valor intrínseco e segregava a mente do corpo.
Se quisermos salvar espécies e ambientes, precisamos de
um conceito mais amplo da ciência e de um raciocínio mais abrangente, que
une o conhecimento empírico com as emoções que nos fazem amar e, às vezes,
lutar.
Descartes e seus discípulos estavam errados: não se
pode separar os sentimentos do conhecimento, o objeto do sujeito; não
podemos separar a mente ou o corpo do contexto ecológico e emocional.
Ciência sem amor não pode oferecer um motivo para
apreciar o pôr do sol, nem pode oferecer um motivo objetivo para valorizar
a vida. Esses motivos precisam vir de fontes mais profundas.
Segundo, precisamos desafiar a presunção contida no currículo
oculto, que entende que o domínio da natureza pelo homem é bom; que uma
economia de mercado crescente é natural; que todo conhecimento,
independente de suas conseqüências, é igualmente valioso e que o progresso
material é nosso direito. Nos tornamos incapazes de resistir à sedução da
tecnologia, do conforto e do ganho imediato. Sob esse ponto de vista, a
crise ecológica é questão de discernir entre vida ou morte, benção ou
maldição, e de aprender a escolher a vida.
Terceiro, precisamos reconhecer o fato de que o currículo moderno
ensina muito sobre individualidade e direitos, mas pouco sobre cidadania e
responsabilidade. A emergência ecológica somente pode ser resolvida quando
um número suficiente de pessoas adquirir uma idéia mais ampla do que
significa ser cidadão. Esse conhecimento precisa ser cuidadosamente
adquirido em todos os níveis de ensino.
Não se trata apenas de um problema político e social.
Hoje, deveríamos ver o quanto dependemos da comunidade mais ampla de seres
vivos. Nossa linguagem política não sugere esta dependência. A palavra
“patriotismo”, por exemplo, é destituída de conteúdo ecológico. É preciso
que ela venha a significar o uso feito da terra, florestas, ar, água e vida
selvagem. Abusar dos recursos naturais, desgastar o solo, destruir a
diversidade natural, desperdiçar, tomar mais do que o necessário ou deixar
de repor o que foi usado — tudo isso precisa, no futuro, ser considerado
falta de patriotismo. É preciso que “política” volte a significar, como
disse Vaclav Havel, “servir
a comunidade e servir aqueles que virão depois de nós”.
Quarto, precisamos questionar o conceito amplamente difundido de
que nosso futuro é de constante evolução tecnológica e que isso é bom. A fé
na tecnologia permeia todo o currículo, aceitando cegamente a noção de
progresso. Entretanto, esse progresso não é um caminho escolhido de forma
consciente, mas uma crendice tecnológica que avança sem controle através da
história. Essas crendices são incorporadas nos aos métodos pedagógicos, sem
questionamento. Conhecer a linguagem do computador, por exemplo,
transformou-se em meta nacional — incentivada em geral pelos vendedores.
Esse fundamentalismo tecnológico precisa ser questionado. As mudanças
tecnológicas estão nos levando para onde queremos? Qual é o efeito da
tecnologia sobre nossa imaginação, em questões sociais, éticas e políticas?
E qual é o seu efeito ecológico?
George Orwell tinha prevenido que o “fim lógico do progresso
tecnológico é reduzir o ser humano a algo parecido com um cérebro encerrado
em uma garrafa”. O pesadelo de Orwell está
se transformando em realidade, graças também às pesquisas realizadas nas
melhores universidades — pesquisas contrárias às nossas reais necessidades.
Nossas necessidades são necessidades do espírito, mas nossa imaginação e
criatividade concentram-se na matéria.
Um quinto
desafio desponta no horizonte, solapando a
mais antiga e confortável das premissas: que educação somente pode ter
lugar em instituições “educacionais”. Escolas e universidades são caras,
lentas, com pouca imaginação, oprimidas pelo peso da tradição e da
autocongratulação. Oferecem currículos com disciplinas que pouco
correspondem à realidade. A educação ecológica visa provocar uma mudança na
ênfase, na lealdade, no afeto e nas convicções, para preencher a lacuna
existente entre o homem e seu meio ambiente.
Trata-se menos de remendos no status quo, do que de um
rompimento com antigos conceitos, com a camisa-de-força dos currículos e
até com o confinamento em salas de aula e prédios escolares.
Educação ecológica exige, antes de mais nada, a
reintegração da experiência no ensino, porque a experiência é um
ingrediente indispensável ao raciocínio. Uma boa maneira para obter essa
reintegração é utilizar o campus universitário como laboratório para o
estudo de alimentos, energia, materiais, água e saneamento. A pesquisa do
impacto ecológico de determinada instituição transforma questões abstratas
complexas em dimensões compreensíveis — em escala que permite a busca de
soluções. Isto representa um antídoto para o desespero sentido pelos
alunos, quando compreendem os problemas, mas são incapazes de efetuar
mudanças. As universidades precisam observar atentamente o potencial
econômico da região, para descobrir como o dinheiro pode ser gasto e
investido no local, para ajudar a mover o mundo em direção mais
sustentável. Por exemplo, alunos de diversas escolas, que pesquisavam a
compra de alimentos, ajudaram a trocar fornecedores distantes por outros
mais próximos, permitindo reduzir custos, melhorar a qualidade e
impulsionar a economia local.
Precisamos ir além. O velho currículo foi elaborado com
o objetivo de ampliar ao máximo o domínio do homem sobre a Terra. O novo
currículo precisa ser organizado para desenvolver conhecimento ecológico e
habilidade prática, essenciais para enquadrar as coisas em um mundo de
micróbios, plantas, animais. O modelo ecológico vai cuidadosamente entrosar
os objetivos humanos com o mundo natural, para orientar os objetivos
humanos.O planejamento ecológico requer capacidade de olhar além das
disciplinas, para ver o mundo no contexto mais amplo; requer ampliação do
conhecimento ecológico — saber como a natureza trabalha — através de todo o
currículo. Significa ensinar aos jovens os fundamentos daquilo que
precisam saber para ampliar o horizonte, para criar uma civilização movida
a luz solar; que utiliza energia e riquezas com grande eficiência; que
preserva o solo, as florestas e a diversidade biológica, que desenvolve
empresas locais e regionais sustentáveis; e que repara os danos infligidos
à Terra durante toda a era industrial.
Mas, precisamos ir ainda mais longe. Chegou o momento
de voltar a unir as disciplinas. Para tanto, sugiro que dediquemos parte do
currículo, em todos os níveis, ao estudo de um aspecto ou lugar do nosso
meio ambiente — um rio, montanha, vale, lago, solo, pântano, determinado
animal, pássaros, o céu, a orla marítima ou até mesmo uma pequena cidade.
Um curso sobre o rio local poderia começar com uma viagem rio abaixo, para
colocar os alunos frente ao objeto do estudo. Depois poderiam escolher
diferentes aspectos do rio para estudar: sua evolução, como foi povoado, a
ecologia, os peixes e a vida aquática, os efeitos da poluição, as leis que
governam o seu uso, e assim por diante. O curso termina com outra viagem,
enquanto os alunos descrevem o que aprenderam.
Rios, montanhas, lagos são reais; disciplinas são
abstratas. O que é real estimula todos os sentidos, não só o intelecto. O
conhecimento curricular normalmente é isolado da realidade e muitas vezes é
difícil relacioná-lo a realidades ecológicas concretas. Os alunos precisam
aprender a apreciar, respeitar e, quem sabe, até mesmo amar uma parte
específica do mundo, antes de adquirir o poder implícito no conhecimento
puramente abstrato. Se o jovem compreende como o mundo funciona em um
sistema integrado e por que esse conhecimento é importante para seus
objetivos e seu estilo de vida, ele vai saber também como conseguir uma
economia sustentável.
Defensores do currículo convencional acreditam que o
domínio de uma disciplina, oferecendo conhecimento especializado, é um fim em si. Aconselho
revertermos essa prioridade para colocar o conhecimento dentro de um
contexto ecológico específico. Desta forma, vamos engajar todos os sentidos
dos alunos, não apenas sua inteligência, para que se apaixonem pelo mundo
natural. Podemos também ensinar as limitações do conhecimento a respeito de
determinado aspecto da natureza — e este é o começo da sabedoria ecológica.
Educação ecológica requer também mudanças no
funcionamento e nas prioridades de escolas e universidades, assim como no
seu modo de operar. Por exemplo, na pesquisa mencionada, os alunos
descobriram maneiras de reduzir custos, melhorar serviços, diminuir o
impacto sobre o meio ambiente e ajudar a economia local. O princípio é
simples: aquelas instituições que pretendem induzir os jovens a tornarem-se
adultos responsáveis devem elas próprias mostrar responsabilidade pelo
mundo que os jovens herdarão. Instituições de ensino muitas vezes medem seu
desempenho pelo investimento por aluno ou pela porcentagem de docentes com
Ph. D.. Do ponto de vista ecológico, temos outro conjunto de indicadores da
qualidade:
1. Emissão de dióxido de carbono por aluno;
2. Porcentagem de materiais reciclados;
3. Porcentagem de material reciclado adquirido;
4. Uso de produtos tóxicos;
5. Porcentagem de energia renovável consumida;
6. Porcentagem de dejetos orgânicos transformados em
adubo;
7. Quantidade de água usada por aluno;
8. Porcentagem de alimentos servidos na cantina, que
foram cultivados organicamente;
9. Carne consumida por aluno.
Pensamos que o ensino é feito em edifícios, mas achamos
que a construção e operação desses prédios nada têm a ver com educação.
Isto é um erro. O currículo oculto na arquitetura acadêmica constitui uma
espécie de pedagogia cristalizada, cheia de preconceitos relacionados ao
poder, à maneira como as pessoas aprendem, como se relacionam com o
mundo natural e como se relacionam uns com os outros. Existem, porém, oportunidades
educacionais: o projeto ecológico abrange o paisagismo, a engenharia solar,
a seleção dos materiais de construção, a escolha de materiais de consumo
duráveis e recicláveis e a eliminação do lixo e dos dejetos.
Além de reduzir o impacto sobre o meio ambiente, as
instituições de ensino poderiam usar suas verbas para ajudar a economia
local e regional. A decisão de comprar alimentos, cultivados organicamente,
de produtores locais, pode servir de incentivo para que os agricultores
mudem para métodos de produção ecologicamente sustentáveis. O mesmo
princípio aplica-se a quase todos os produtos e serviços adquiridos. As
instituições de ensino são conhecidas e respeitadas.
Todos vão comentar, se uma escola ou universidade
comunica que está levando o futuro a sério e, portanto, vai reduzir o
impacto sobre o meio ambiente e, ao mesmo tempo, ajudar a economia local e
regional.
Por fim, algumas palavras sobre o objetivo da educação
ecológica. Na maioria das vezes, ouvimos que o ensino é útil porque aumenta
as possibilidades de promoção e de ganhar a vida. Preparamos os jovens para
aquilo que os orientadores chamam de “carreira”. Raramente mencionamos
aquilo que era chamado de “vocação”. Sob uma perspectiva mais ampla, isto é
tolice. Os alunos deveriam ser estimulados, antes de mais nada, a
descobrirem sua vocação: aquilo que lhes desperta paixão, que realmente
gostariam de fazer. A vocação indica o que queremos fazer de nossa vida. A
carreira é um plano friamente elaborado para obter segurança e um pouco de
“prazer”. A carreira quase sempre revela-se profundamente insatisfatória,
não importando a renda. A vocação não é algo calculado, mas o resultado de
uma conversa interior sobre aquilo que importa na vida e a contribuição que
queremos dar a este mundo. A vocação começa como intuição. É arriscada. É
mais inspirada do que premeditada. A carreira é um teste de QI; a vocação é
um teste não somente da inteligência, mas também de sabedoria, caráter,
lealdade e força moral. A pessoa sempre pode achar uma carreira dentro de
sua vocação. É muito mais difícil encontrar, ao longo da vida, uma vocação
na carreira. Quando a pessoa opta pela segurança, a sorte está lançada. Em
última análise, a carreira é falta de imaginação e sinal de que achamos o
mundo pobre em possibilidades.
Precisamos encorajar os jovens a encontrar em sua
vocação um trabalho bom e necessário. O trabalho melhor e mais necessário
no mundo atual procura, de mil maneiras, sintonizar os valores, as
instituições, as expectativas e o comportamento humano com o respeito à
Terra em que vivemos. Esta é hoje a tarefa da educação.
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Fonte: Resurgence nº 160, outubro de 1993.
David Orr é professor titular de pedagogia na Faculdade
de Oberlin, Ohio, EUA.
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