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Uma praga deste século

Lynne McTaggart

Se alguma coisa mudou a natureza de nossa saúde nos últimos 30 anos é a praga de novos produtos químicos que nos cercam, em nossos lares, em nosso ar, em nossa água, em nossos alimentos — ou seja, em praticamente tudo que usamos na vida moderna. Os produtos químicos tóxicos são, hoje, o que os vírus foram cem anos atrás – a fonte oculta da maioria das doenças. Hoje, estamos tão imersos em produtos químicos no nosso dia-a-dia, que alguns dos males mais recentes — síndrome do edifício doente, sensibilidade múltipla a químicos — devem seus nomes a eles.

Os pesticidas não são usados somente nas lavouras e nos jardins. Os serviços públicos pulverizam várias áreas recreativas com pesticidas — parques, campos de golfe,  praças —, para que o gramado fique mais bonito.

Dentro de casa, a sobrecarga de produtos químicos é ainda maior. Nos últimos 30 anos, muitos materiais e produtos químicos novos fabricados pelo homem chegaram aos nossos lares. Um estudo da Agência Americana de Proteção Ambiental comparou a poluição dentro e fora de casa e concluiu que as pessoas pesquisadas respiravam de duas a cinco vezes mais produtos químicos nocivos à saúde dentro de casa do que no jardim — mesmo vivendo em cidades altamente poluídas.

Encabeçando a lista de produtos químicos que transformam o ar que respiramos dentro de casa em uma virtual sopa química estão os compostos orgânicos voláteis, derivados petroquímicos encontrados em praticamente todos os materiais de construção e decoração — tintas, carpetes, compensados, painéis de madeira, muitos tecidos e adesivos. À temperatura ambiente, esses produtos químicos exalam lentamente vapores tóxicos. Só os carpetes podem conter mais de 120 produtos químicos quando adicionamos pesticidas, rodenticidas, retardantes de fogo, repelentes de manchas, produtos antiestáticos, colas, corantes e outros que os tornam mais duráveis e fáceis de limpar.

E não podemos esquecer os produtos químicos tóxicos que fazem parte do nosso arsenal de higiene pessoal. Um simples frasco de xampu pode conter um coquetel de 10 ou mais químicos tóxicos, como o laurilsulfato de sódio — em pastas de dentes e na maioria dos sabonetes e xampus —, que é um detergente utilizado para limpar motores industriais.

Apesar da crescente comprovação de que produtos químicos estão fazendo muitas pessoas ficarem doentes, o sistema médico insiste em afirmar que os micróbios são a única fonte de doenças e considera qualquer outro problema imaginação fértil. Foi esta a conclusão a que chegou o relatório do Royal College, emitido em 1996, sobre a síndrome da fadiga crônica e a sensibilidade múltipla a químicos.

Para entender as doenças degenerativas mais desconcertantes do Século 20, como esclerose múltipla, câncer ou AIDS, a medicina moderna precisa livrar-se da noção de que todas as doenças têm uma única causa e começar a pensar em termos de sobrecarga tóxica.

Embora muitos estudos científicos excelentes provem que os produtos químicos podem prejudicar a saúde, a questão é saber exatamente como isto acontece. Simplesmente examinando sua composição molecular, não há como determinar, por exemplo, se um produto químico rompe hormônios.

Um problema ainda maior é o efeito combinado dessas substâncias. Sabemos agora que o efeito combinado de dois ou três pesticidas, em níveis baixos, encontrados na maioria dos ambientes modernos, aumenta em até 1.600 vezes o efeito de cada um dos produtos químicos usados isoladamente. Isso deveria ser suficiente para testar os produtos químicos em combinações. Mas, como mostra a publicação Rachel’s Environment & Health Weekly, de 13 de junho de 1996: "Para testar apenas os 1000 produtos químicos tóxicos mais comuns em combinações de três, seria necessário fazer no mínimo 166 milhões de experimentos. Mesmo que cada experimento durasse apenas uma hora e 100 laboratórios trabalhassem 24 horas por dia, sete dias por semana, testar todas as possíveis combinações tri plas de 1000 produtos químicos levaria mais de 180 anos."

Essa constatação impressionante exige que todos nós protestemos mais alto contra a indústria para evitar o uso de todos os produtos químicos que não tenham sido amplamente pesquisados. Devemos insistir que, antes de comercializá-lo, os fabricantes tenham a responsabilidade de provar que um produto químico não é nocivo à saúde. O que acontece agora é que a maioria dos produtos químicos é considerada inocente até que se prove sua culpa.

E, o que é mais importante, não podemos mais permitir que a tríade mortal dos conglomerados médico, farmacêutico e químico continue alegando que o início de uma ampla epidemia ambiental só existe em nossas cabeças — uma alegação que lhes permite saírem ilesos.
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Fonte: The Ecologist, Vol 30, nº 5, julho/agosto 2000

 
 
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