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O mundo está
criando uma economia
de bolha alimentar baseada
no uso insustentável da água
Lester Brown
Dia
5 de junho, a ONU comemora o Dia Internacional da Água.
Em 2004, as comemorações tiveram como tema "Água:
2 bilhões de pessoas estão morrendo por ela".
Como contribuição para este tema,
estamos divulgando o artigo abaixo.
Em 16 de março de 2003, cerca de 10.000 participantes se reunirão
no Japão, no terceiro Fórum Mundial da Água, para discutir as perspectivas
mundiais da água. Embora os debates oficiais venham a enfocar a escassez
hídrica, indiretamente estarão tratando da escassez alimentar, uma vez que
70% da água que desviamos dos rios ou bombeamos do subsolo, são utilizados
para irrigação.
À medida que a demanda hídrica triplicou durante o último meio século,
suplantou a produção sustentável de aqüíferos em dezenas de países,
provocando a queda de lençóis freáticos. Na verdade, os governos estão
atendendo à demanda crescente de alimentos com a extração excessiva de água
subterrânea, uma ação que, praticamente, garante a queda de produção de
alimentos quando o aqüífero estiver exaurido. Conscientemente ou não, os
governos estão criando uma economia de “bolha alimentar.”
À medida que o consumo de água aumenta, o mundo se expõe a um gigantesco
déficit hídrico em grande parte invisível, historicamente recente, que
cresce aceleradamente. Uma vez que a iminente catástrofe hídrica se traduz
na queda de lençóis freáticos, não é visível. O declínio dos lençóis
freáticos, freqüentemente, só é descoberto quando os poços secam.
Quando a demanda pela água ultrapassa a produção sustentável de um
aqüífero, o descompasso entre os dois aumenta a cada ano. No primeiro ano
em que a linha é cruzada, o lençol freático cai muito pouco, com um
declínio quase imperceptível. Entretanto, a cada ano seguinte, a queda
anual é superior ao ano anterior.
As bombas a diesel ou elétricas que permitem a extração excessiva foram
disponibilizadas mundialmente, aproximadamente ao mesmo tempo. A quase
simultânea exaustão de aqüíferos significa que as reduções nas colheitas de
grãos ocorrerão em muitos países mais ou menos na mesma época. E isto
quando a população mundial cresce em mais de 70 milhões de pessoas,
anualmente.
Os aqüíferos estão sendo exauridos em dezenas de países, inclusive na
China, na Índia e nos Estados Unidos, que, conjuntamente, colhem metade dos
grãos mundiais. Sob a planície norte da China, que produz mais da metade do
trigo e um terço do milho chinês, a queda anual do lençol freático aumentou
de uma média de 1,5
metros, há uma década, para 3 metros, hoje. O
bombeamento excessivo já exauriu, em grande parte, o aqüífero raso e,
assim, o volume de água que pode ser bombeada anualmente se restringe à
recarga anual das chuvas. Isto está forçando a perfuração do aqüífero
profundo da região, o qual, infelizmente, não é recarregável.
He Quincheng, diretor do Instituto Geológico de Monitoração Ambiental em
Beijing, observa que à medida que o aqüífero profundo sob a planície norte
da China se exaure, a região perde sua última reserva hídrica – seu único
recurso de segurança. Sua preocupação é espelhada num relatório do Banco
Mundial: “Dados empíricos indicam que poços profundos (perfurados) em torno
de Beijing, hoje, precisam atingir 1.000 metros para
alcançar água doce, aumentando dramaticamente o custo do abastecimento.” Em
termos fortes, algo raro para o Banco, o relatório prevê “conseqüências
catastróficas para as gerações futuras” caso o uso e abastecimento da água
não sejam rapidamente colocados em equilíbrio.
A Índia, hoje com uma população de 1 bilhão, está extraindo excessivamente
os aqüíferos em vários estados, inclusive Punjab (o celeiro do país),
Haryana, Gujarat, Rajasthan, Andhra Pradesh e Tamil Nadu. Os últimos dados
indicam que, sob o Punjab e Haryana, os lençóis freáticos estão caindo a
uma taxa de 1 metro
por ano. David Seckler, ex-diretor do Instituto Internacional de Gestão
Hídrica, estima que a exaustão dos aqüíferos poderá reduzir a colheita de
grãos na Índia em um quinto.
Nos Estados Unidos, os lençóis subterrâneos caíram mais de 30 metros em partes
do Texas, Oklahoma e Kansas – três dos principais estados produtores de
grãos. Conseqüentemente, os poços estão secando em milhares de fazendas no
sul de Great Plains.
O Paquistão, uma nação com 140 milhões de habitantes que ainda cresce a um
ritmo de 4 milhões por ano, também exaure seus aqüíferos. Na parte
paquistanesa da planície fértil do Punjab, a queda do lençol freático é
aparentemente semelhante à da Índia. Na província de Baiuchistan, uma
região mais árida, o lençol freático em torno da capital, Quetta, está se
reduzindo a um ritmo de 3,5
metros anuais. Richard Garstang, especialista
hídrico do Fundo Mundial para a Natureza, diz que “dentro de 15 anos Quetta
ficará sem água, caso o ritmo de consumo atual continue.”
No Iêmen, o lençol freático está caindo cerca de 2 metros ao ano. Em
sua busca por socorro, o Governo do Iêmen perfurou poços experimentais na
bacia do Sana’a, onde está localizada a capital, com 2 quilômetros de
profundidade – níveis normalmente associados à indústria petrolífera – não
conseguindo encontrar água. Com uma população de 19 milhões, crescendo a um
ritmo de 3,3% ao ano, uma das maiores taxas do mundo, e lençóis freáticos
caindo por toda a parte, o Iêmen está rapidamente atingindo um estado
hidrológico desesperador. Christopher Wards, do Banco Mundial, observa que
“a água subterrânea está sendo extraída num ritmo tal que setores da
economia rural poderão desaparecer dentro de uma geração.”
No México — com uma população de 104 milhões, projetada a atingir 150
milhões até 2050 — a demanda pela água está excedendo a oferta. No estado
agrícola de Guanajuato, por exemplo, o lençol freático está caindo 2 metros, ou mais, ao
ano. Em nível nacional, 52% de toda a água extraída do subsolo vêm de
aqüíferos bombeados excessivamente.
A escassez hídrica, outrora uma questão local, hoje atravessa fronteiras
internacionais por meio do comércio internacional de grãos. Por exigir mil
toneladas de água para produzir uma tonelada de grãos, sua importação é a
forma mais eficiente de importar água. Países pressionados ao limite de sua
disponibilidade hídrica, satisfazem a demanda crescente das cidades e das
indústrias, desviando a água de irrigação da agricultura e importando grãos
para compensar a perda de capacidade produtiva. À medida que o déficit se
intensifica, também aumenta a competição pelos grãos nos mercados mundiais.
De certa forma, a negociação nos mercados futuros de grãos é o mesmo que
negociar no futuro da água.
Na China, uma combinação de exaustão de aqüíferos, desvio de água de
irrigação para as cidades e menores preços mínimos para os grãos, está
encolhendo a safra de grãos. Após atingir o pico de 392 milhões de
toneladas em 1998, a
colheita caiu para 346 milhões de toneladas, em 2002. A bolha alimentar
da China está prestes a romper. Compensou o déficit de grãos durante três
anos, por meio da redução de seus estoques, mas brevemente terá que se
voltar para os mercados mundiais para cobrir este déficit. Quando o fizer,
poderá desestabilizar os mercados internacionais de grãos.
Embora alguns países já tenham obtido ganhos significativos no aumento da
eficiência de irrigação e reciclagem da água servida urbana, a resposta
costumeira à escassez hídrica tem sido construir mais barragens ou perfurar
mais poços. Mas, hoje, ampliar a oferta está cada vez mais difícil. A única
opção é reduzir a demanda pela estabilização populacional e elevar a
produtividade hídrica. Com quase todas as 3 bilhões de pessoas que serão
adicionadas à população mundial até 2050, nascendo nos países em
desenvolvimento, onde a água já é escassa, atingir um equilíbrio aceitável
entre água e população poderá, agora, depender mais da estabilização
populacional do que de qualquer outra ação.
O segundo passo na estabilização da situação da água é a elevação da
produtividade hídrica, do mesmo modo que se elevou a produtividade
agrícola. Após a II Guerra Mundial, com a população então projetada a
dobrar até 2000, e com pouca terra nova para ser cultivada, o mundo
lançou-se num gigantesco esforço para elevar a produtividade das terras
cultivadas. Como resultado, esta produtividade quase triplicou entre 1950 e
2000. Chegou a hora de ver o que poderemos fazer com a água.
Lester Brown é fundador do WWI-Worldwatch Institute e do EPI-Earth Policy
Institute.
Copyrights 2003.
EPI-Earth Policy Institute / UMA-Universidade Livre da Mata Atlântica.Todos
os direitos reservados.
Autorizada a reprodução citando fonte e site www.wwiuma.org.br, que
apresenta ainda outros artigos de Lester Brown sobre este assunto
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BLUE GOLD
Ouro azul
Maude Barlow
e outro
The new Press,
New York,
EUA,
2002, 278 p
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A
luta contra o roubo empresarial da água no mundo. O livro mostra porque o
vice-presidente do banco mundial declarou: "as guerras do próximo
século serão pela água"
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