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Projeto
da Diversidade do Genoma Humano
George Monbiot
A ética de propriedade é especialmente
importante quando se refere ao material genético humano.
A diretiva européia diz que não se pode requerer
patente sobre material genético humano dentro do corpo,
mas que é possível conseguir patente sobre as mesmas
substâncias químicas extraídas do corpo e purificadas.
Isto não representa barreira de espécie alguma: o
material só se torna útil comercialmente quando extraído
e purificado. Já surgiram situações inacreditáveis.
Visitei um famoso geneticista e perguntei se ele já tinha
alguma patente. Ele pensou um pouco e lembrou. “Sim, sou
dono do gene da masculinidade humana”.
Coisas que antigamente pertenciam à comunidade ou não
pertenciam a ninguém, estão repentinamente sendo
reclamadas como propriedade particular. Acho isso extremamente
preocupante. Principalmente quando mediadas pelo “The
Human Genome Diversity Project” (Projeto da Diversidade
do Genoma Humano). Esse projeto multinacional procura genes interessantes
e raros no mundo inteiro. Dizem estar interessados em preservar
os genes dos povos indígenas antes que sejam extintos. Querem
que esses genes continuem disponíveis para uso médico
ou comercial após o desaparecimento dos indígenas.
Não houve grandes consultas aos povos indígenas antes
do início do projeto. Ora, os povos indígenas não
estão interessados em ter seus genomas preservados após
a extinção; estão mais interessados, em primeiro
lugar, em não serem extintos. Desejam ajuda para criar condições
que possibilitem melhor chance de sobrevivência — não
para decidir como usar seus restos depois que desaparecerem.
Pesquisadores do Projeto estão trabalhando com o povo Hagahai,
da Nova Guiné. Encontraram uma seqüência de genes
muito interessante, que parece conferir resistência a uma
forma rara de leucemia. Amostras foram remetidas para os Institutos
de Saúde em Washington, que receberam a patente sobre a
seqüência resistente à leucemia. Asseguraram
direitos sobre uma parte do povo Hagahai que, na verdade, pertence
a eles. Sem o seu consentimento, a posse de algo dessas pessoas
foi transferida.
As implicações do Projeto da Diversidade do Genoma
Humano são incríveis e de longo alcance. É um
programa multilateral, enorme e muito bem financiado. Seus participantes
esperam produzir um mapa completo do genoma humano nos próximos
cinco ou dez anos. Algumas das possíveis aplicações
são empolgantes. Por exemplo, o mapeamento dos genes pode
levar a diagnósticos médicos mais precisos. É possível
que, em alguns anos, exames genéticos se tornem tão
rotineiros quanto os exames de sangue hoje.
Parece maravilhoso, mas algumas implicações são
alarmantes. A primeira é a possibilidade de outras pessoas
se apropriarem da informação sobre a nossa estrutura
genética. Nos Estados Unidos, algumas seguradoras já estão
praticando o que se pode chamar de discriminação
genética. Já existem numerosos casos em que as companhias
dispensam pessoas como mau negócio, porque um parente tem
uma doença genética. É possível imaginar
uma situação em que — com melhor acesso a dados
para decidir o que deve ser visto como ”geneticamente deficiente” — grande
parte da população seja afastada dos seguros. O seguro
deixaria de ser um risco para as seguradoras e deixaria de ser útil
para aqueles que provavelmente mais precisam do seguro saúde.
A situação parece ainda pior quando o assunto é emprego
e educação. Existem diversos casos, nos Estados Unidos,
de empregados sendo dispensados porque têm uma predisposição
genética para doença. As empresas não querem
gastar dinheiro treinando pessoas que podem cair mortas aos 40
anos.
O mapeamento dos genes tem uma aplicação ainda mais
controversa. Já é possível descobrir deficiências
genéticas em fetos que, se nascerem, podem ter uma terrível
e curta vida. Embriões com essas mutações
poderiam ser abortados. A grande questão é: “Aonde
parar?” Quando não estamos certos do limite entre
a pesquisa genética aceitável e a não aceitável,
corremos o risco de entrar em território realmente perigoso.
Se é aceitável selecionar embriões com risco
de vida imediato, por que não é aceitável
selecionar condições que podem se tornar perigosas
mais tarde? E se isso é razoável, por que não
selecionar embriões com condições que podem
tornar a vida difícil? E se isso parece bom, por que não
selecionar o embrião baixo, o feio e o tolo? É difícil
apresentar um argumento coerente para colocar um basta.
A questão fica ainda mais séria com a possibilidade
de que a terapia genética possa um dia se tornar um meio
de mudar as características genéticas do embrião.
Essa terapia — que tenta introduzir ou retirar partes de
material genético do genoma do embrião — ainda
não é possível no momento. Entretanto, a docente
Theresa Marteau, psicóloga em dois hospitais de Londres,
registrou a rápida aceitação dessa tecnologia
por parte do público. Ela realizou duas pesquisas, uma em
1993 e a outra em 1994. Em 1993, 4% dos entrevistados disseram
que eram a favor da terapia em seus embriões, para aumentar
a inteligência ou aparência, ou para assegurar que
não se tornassem homossexuais. Em 1994, o número
havia aumentado para 11%. O que é bom para o indivíduo
pode ser ruim para a sociedade. O perigo de uma terapia genética
não surge da ameaça de um estado ditatorial buscando
a melhoria da raça, mas do fantasma bem mais prosaico do
consumismo. Não é difícil imaginar um futuro
em que só os ricos — por meio da tecnologia
de genes — possam escapar dos efeitos genéticos da
crescente exposição a poluentes como pesticidas e
lixo radiológico.
Em alguns ramos da ciência, existem caminhos que certamente
estão errados. O Projeto da Diversidade do Genoma Humano,
por exemplo, é um esquema que deve ser encerrado imediatamente.
Informação sobre nossa estrutura genética
deve ser regulada por severa legislação de privacidade.
Não deveria ser possível patentear material genético,
que em hipótese alguma pode ser considerado uma “invenção” humana.
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Fonte: Extraído de artigo da revista Resurgence, nº 185. O
autor, George Monbiot, escreve regularmente para “The Guardian” e
trabalha na campanha “The Land is Ours”.
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