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Ciência
ou engodo
Apresentado de forma séria,
humorística e poética,
este texto foi escrito pelo Dr. Christian Tal Schaller,
fundador do Institut de Santé Globale, Taulignan, França
Os
Peritos
Vamos boa gente, dêem-nos seu dinheiro! Somos os peritos!
Podem confiar em nós, pois somos especialistas em todas
as áreas. Desde a medicina até a ciência
nuclear, somos verdadeiros reis, bem mais poderosos que os chefes
de estado, pois vocês nem sabem os nossos nomes.
Vocês terão saúde a partir do momento em
que acabarmos de matar todos os vírus, de bombardear
todos os tumores, de ajustar todos seus órgãos.
De nossos laboratórios gigantes sairá a felicidade
...sejam pacientes. Algumas verbas adicionais e apagaremos
todas as vossas doenças com a borracha de nossos medicamentos.
Obedeçam a nossa sabedoria, acreditem naquilo que dizemos,
somos infalíveis, a deusa Ciência está conosco.
Sim, a doença acontece por acaso, é um inimigo malvado de quem
vocês são as vítimas impotentes. Mas, acalmamos os temores
e as dores com pílulas mágicas, oriundas de estudos científicos
realizados com a maior seriedade.
Não esqueçam que todos os anos imolamos milhões de animais
no altar da ciência. Prometemos ao povo a felicidade para o dia de
amanhã, a pílula contra o câncer, a vacina contra a Aids.
Como prêmio, lhes oferecemos o coração de plástico
e o pulmão de celulose. Nosso objetivo, a médio prazo, é o
homem artificial, totalmente lavável, descartável após
100.000 quilômetros e reembolsado pelos planos de saúde.
Temos certeza daquilo que dizemos e confiança absoluta em nossa doutrina.
Eliminaremos todos os vossos males sem que tenham de mudar seus hábitos.
Prometemos não ameaçar nunca seus prazeres, nem lhes pedir
qualquer esforço. Deixaremos vocês em condições
de viver como antes: fumando, bebendo e comendo de tudo. Não tentem
se rebelar, nos provocar; temos os meios colocá-los na linha se ousarem
contestar nosso poder.
Os políticos estão em nossas mãos; eles participam dos
conselhos de administração da indústria do bem-estar
artificial. Monopolizamos a pesquisa científica. A mídia levamos
no cabresto; pobre do jornalista que ousar nos atacar: logo irá para
o olho da rua. Combatemos as doenças, somos os cavaleiros da química,
nossa cruzada é nobre, queremos o bem de todos. Admirem-nos e fechem
seus ouvidos às palavras perniciosas de mentes doentias e pouco sérias
que afirmam que a química polui o organismo, mata as florestas, destrói
a terra!
São loucos esses sonhadores que pensam que, com um pouco de informação
e algumas medidas educativas cada um pode aprender a cuidar de sua saúde,
livrar-se das doenças e cantar, dançar e brincar. Esses mercadores
de falsas esperanças até alegam que algumas pessoas sobrevivem à Aids. É demais!
Como ousam! Nós sabemos e afirmamos que todos os doentes vão
morrer enquanto não tivermos encontrado o medicamento devidamente
patenteado que poderá salvá-los.
Não dêem ouvidos a esses charlatães, esses marginais,
esses inúteis, esses excêntricos, totalmente loucos, que pretendem
que a doença é conseqüência do modo de vida. É ridículo!
Querem responsabilizá-lo pelas dores e pelos tormentos que sente.
Querem alterar seus hábitos e obrigá-lo a comer sementes germinadas!
Esses anarquistas, esses desmancha-prazeres, querem mostrar-lhes como se
tornar perito na própria felicidade, na própria saúde.
Não lhes dêem ouvidos, por piedade, pois se vocês recuperem
o poder que nos deram, o que será de nós?
Sejam sensatos, não façam com que percamos o emprego. Obedeçam-nos,
por favor. Deixem-nos continuar a dirigir tudo em nome do progresso, em nome
do lucro. Continuem a viver adormecidos, embalados por papai aperitivo, por
mamãe medicamento e pela chupeta chamada cigarro. Nós lhes
suplicamos: não acordem!
Boletim do Reino da Justiça,
n° 24
Reproduzimos este texto, sem dúvida irônico
e humorístico, porque descreve uma realidade evidente e
porque emana do punho de um médico, cuja consciência
profissional, alertada por uma situação mais do que
anormal e chocante, se insurge contra o engodo de que "a boa
gente" é vítima.
Engodo que se manifesta de muitas maneiras porque a mentira impera
em nossas sociedades desprovidas de moral, de retidão e
de lealdade. O dinheiro consegue fazer passar por bom tudo aquilo
que é ruim e por ruim tudo aquilo que é bom, destruindo
a consciência e corrompendo a mente.
O artigo do Dr Schaller é extremamente claro e em um tom
ligeiramente cáustico traduz bem a mentalidade que predomina
no meio científico-farmacêutico. Uma mentalidade mais
voltada para o mercantilismo e o lucro do que para a preocupação
com a saúde pública. Esse verdadeiro charlatanismo,
além de tudo, acusa aqueles que permaneceram fiéis
ao Juramento de Hipócrates de serem charlatães (impostores).
Como afirmou o escritor humanista André Gide: "Em
um mundo em que todos trapaceiam, é o homem honesto que
faz figura de charlatão".
É preciso que nosso mundo esteja em profunda escuridão espiritual
para que o homem se deixe enganar e manipular dessa forma. É verdade,
que muitas coisas o distraem e corrompem a ponto de não ter tempo para
refletir. E a confiante credulidade que ele deposita naqueles que o instruem
e o dirigem, despojando-o de qualquer bom senso, faz com que ele aceite tudo
que lhe dizem sem distinguir o verdadeiro do falso.
É grave que o "civilizado" moderno se apega muito a seus
hábitos, mesmo quando admite, confusamente, que são prejudiciais
para a saúde. Ele gosta daquilo que o prejudica mesmo porque é incentivado
por uma publicidade hipócrita e lancinante, pelo sabor agradável
do veneno que lhe é oferecido.
Adormecido por todas essas promessas soporíficas que lhe
fazem os eleitos e os cientistas, ele tem dificuldade para acordar
apesar de todos as ocorrências tumultuosas e catastróficas
que abalam o planeta. Será preciso que o desmoronamento
total do sistema o desperte de sua letargia. Podemos até dizer:
para libertá-lo do feitiço que o paralisa. Será somente
então que os olhos se abrirão, os ouvidos se desobstruirão
e os corações compreenderão.
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Fonte: Revista da Lega Svizzera contro la Vivisezione, nº 64
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