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Ciência com escrúpulos

George Monbiot

O alcance da pesquisa científica deve levar em conta a ética,
o meio ambiente e a justiça social

Não devemos olhar apenas para as aplicações técnicas da pesquisa genética, mas precisamos considerar a ética da própria ciência. Algumas pessoas defendem a tese de que a ciência estaria isenta de valor, sem implicações éticas nem morais. Seria, simplesmente, uma pesquisa de informação e uma satisfação da curiosidade científica. Só teria conotação ética quando a informação fosse posta em prática. Acho difícil entender como essa análise se aplica ao desenvolvimento atual da biologia.

Em todos os institutos de pesquisa, logo de início se leva em conta a possível aplicação comercial de uma pesquisa. Em alguns casos, as mesmas pessoas perseguem uma linha de raciocínio desde a hipótese até o mercado. Há uma razão muito simples para isso — muitos cientistas dependem de verba comercial. As pessoas que fornecem essa verba têm grande interesse no resultado da pesquisa. Por isso, é falsa a tentativa de separar a pesquisa em ciência pura, sem valor moral, da pesquisa em ciência aplicada, com conotação de valor. Precisamos considerar as implicações éticas das ciências, em vez de só olhar para possíveis aplicações.

Nos últimos anos, houve um estreitamento do horizonte científico. Estamos enfrentando problemas profundos: enormes mudanças ambientais, crescente pobreza global, deslocamento e expulsão de milhões de pessoas. Muitos cientistas fogem dessas questões urgentes e voltam sua atenção para o microscópio. As universidades estão se afastando dos problemas realmente críticos — como atenção primária à saúde, uso dos recursos naturais e ecologia — e indo em direção à biologia molecular e à genética.

A questão florestal

A grande pergunta é: “Por que as florestas estão desaparecendo?” e “Quais as conseqüências desse desaparecimento?” São questões que envolvem milhões de pessoas, afetadas pela perda da propriedade, pela erosão do solo, pela mudança dos rios, por mudanças regionais e locais do clima. Vamos aos cientistas florestais e perguntamos a razão. “Por que isto está acontecendo e o que precisamos fazer para parar?” Como resposta, eles nos dão uma seqüência de genes. Temos visto a sistemática molecular expulsar a ecologia de prestigiosos departamentos florestais, justamente quando mais precisamos de uma sólida pesquisa ecológica. Acho isso perverso.

Não é difícil entender por que acontece. A biologia molecular e a genética são muito atraentes. Sentimos que estamos na margem do mundo conhecido, olhando para o abismo da ignorância humana. Os trabalhos são fáceis de publicar. Hoje, um recorde de publicações científicas é importante para obter verbas governamentais. A elegibilidade é medida pelo número de trabalhos publicados. Ser o maior produtor de trabalhos científicos no mundo não é motivo de celebração: pode sugerir não a amplidão da ciência, mas a estreiteza dela.

A natureza das verbas também está mudando. Em muitos ramos da ciência, o financiamento comercial está substituindo as verbas governamentais. Até mesmo a alocação de fundos do governo é guiado pela possibilidade de aplicações comerciais. Isso traz outro problema. Os pobres do mundo são os que menos podem pagar. Portanto, seus interesses são os menos defendidos no financiamento comercial da ciência. Esta ciência vai prestar menos atenção às suas necessidades do que, por exemplo, às necessidades das grandes madeireiras, que podem ser diametralmente opostos aos interesses dos mais vulneráveis que vivem na terra. A engenharia genética das plantas é um exemplo claro de alguns dos riscos resultantes.

Engenharia genética

Dizem, e muitos acreditam, que a engenharia genética das plantações vai alimentar o mundo — que sem a engenharia genética vai ser impossível alimentar o mundo. Safras geneticamente manipuladas, em muitos casos, são mais produtivas que as outras. E não há dúvida de que precisamos de mais comida. A engenharia genética pode possibilitar mais comida, portanto, a engenharia genética vai salvar o mundo da fome.

Infelizmente, não é tão simples assim. Todas as crises de fome do mundo são provocadas mais por uma dificuldade de fazer chegar a comida àqueles que precisam do que por uma falta de alimentos. Um componente sério da fome tem sido o desvio ou substituição de alimentos — desaparecem no exterior ou são usados para a criação intensiva de animais, são substituídos por alimentos de luxo ou colheitas cata-divisas. A biotecnologia vai contribuir para essa situação inadequada e, portanto, para a fome.

No início dos anos 90, trabalhei durante dois anos no Brasil. Uma das questões que analisei foi a ligação entre propriedade e produção de alimentos. Na época, 1% dos proprietários possuía 49% da terra, enquanto 56% dos proprietários mais pobres, os agricultores, possuíam apenas 3% da terra. E esses agricultores, trabalhando apenas 3% da terra, produziam quase toda a alimentação básica: a maior parte da mandioca, do milho e do feijão que o país consumia e 40% do arroz. Em outras palavras, eles estavam alimentando a maior parte do Brasil. Os grandes proprietários, com muito capital e bons contatos internacionais, estavam usando suas terras para produzir lucrativas safras para exportação. Aqueles que tinham dinheiro e contatos usavam essas vantagens para obter lucro muito maior do que teriam ao plantar arroz ou feijão para a pop ulação local. Estavam plantando abacaxi ou chá ou flores para exportar ou, ainda, cereais em grande escala para a alimentação de porcos na Europa. Ficou claro para mim que tudo que ajuda os pequenos fazendeiros incentiva a segurança alimentar, enquanto que tudo que prejudica os pequenos agricultores reduz a segurança alimentar.

Legislação das patentes

Atualmente, a engenharia genética das culturas está baseada em direitos unilaterais de propriedade intelectual. Para garantir o retorno de seus investimentos, as empresas conseguem patentes para plantas obtidas por meio de engenharia genética. Muitas das plantas que as grandes indústrias farmacêuticas usam como matéria-prima foram desenvolvidas durante milhares de anos pelos camponeses. As indústrias levam para seus laboratórios, introduzem um gene de peixe aqui e um gene de lhama acolá e produzem um novo produto lucrativo. Esta engenharia visa ampliar o período de cultivo, aumentar a resistência a pesticidas ou melhorar a resposta a fertilizantes.

As colheitas são caras. Muitas são ainda mais caras porque foram criadas para responder a substâncias químicas que a mesma indústria produz. Pior: o pequeno agricultor não pode mais fazer o que sempre fazia — comprar a semente uma vez, cultivar e ter suas próprias sementes. As novas sementes são patenteadas e as grandes indústrias exigem que o agricultor pague royalties cada vez que cultiva sementes para uma nova safra. O pequeno produtor simplesmente não pode competir nesses termos. À medida que os grandes produtores ganham acesso a tecnologias que estão fora do alcance dos mais pobres, garantem maior domínio sobre a terra e sobre a produção.

Promessas vãs

Cinco ou seis anos atrás, duas coisas foram prometidas. Primeiro, que as culturas geneticamente modificadas iriam reduzir a dependência de pesticidas. Não haveria mais necessidade de lançar toxinas no meio ambiente porque as plantas estariam equipadas para lidar com as pragas: o novo material genético faria com que fossem intragáveis ou até mesmo venenosas para os predadores. Também seriam capazes de acabar com as ervas daninhas ao seu redor. Segundo, que as novas culturas ampliariam a escolha do consumidor: poderíamos sempre optar entre consumir ou não um produto da engenharia genética. Entretanto, assim que os primeiros carregamentos desses produtos chegaram no mercado, ambas as promessas foram jogadas no lixo.

No ano passado, os Estados Unidos tentaram exportar grande quantidade de soja geneticamente alterada, produzida pela indústria Monsanto, com o nome de Roundup Ready. Acontece que Roundup é um herbicida também produzido pela Monsanto, desenvolvido para acabar com qualquer planta, de qualquer espécie. A soja Roundup Ready seria a única planta que o herbicida Roundup não consegue destruir. Assim, os produtores de soja estariam livres do complicado problema de aplicar um herbicida seletivo: poderiam acabar com tudo que não fosse a planta da soja com apenas uma arma mortal. Resultado: campos com ainda menos biodiversidade do que os atuais.

Quando os Estados Unidos começaram a exportar esses grãos para a Grã-Bretanha, foi sugerido que seria muito difícil distingui-los dos grãos comuns e eles foram misturados aos outros. Agora, a Monsanto comprou ou tem a maioria em 78% dos fornecedores de sementes dos Estados Unidos — em breve, será difícil deixar de comprar um produto Monsanto. A mistura dos grãos geneticamente alterados e dos grãos comuns significa que o consumidor de comida industrializada não pode escolher se quer ou não comer produtos geneticamente modificados.

Engenharia genética para atacar pragas

Existe também a produção de organismos geneticamente modificados para atacar as pragas. Parece uma boa idéia — em teoria. Um vírus poderia ser programado especialmente para matar uma única praga, deixando o resto do ecossistema intacto.

Há alguns anos, testemunhamos em Oxford o primeiro lançamento de organismos geneticamente modificados no meio ambiente britânico. O Instituto de Virologia propunha liberar um vírus geneticamente alterado para atacar uma lagarta que comia repolho. O Conselho de Pesquisa do Meio Ambiente, que custeia os trabalhos do Instituto, insistiu em reuniões abertas ao público, para que as pessoas pudessem levantar preocupações. Entretanto, as entradas foram distribuídas apenas para pessoas escolhidas pelo diretor. Havia vários motivos para preocupação. As experiências no campo não haviam sido precedidas por experiências em estufa biológica simulando as condições do campo para verificar se havia perigo do vírus escapar. O vírus não havia sido geneticamente incapacitado. Nem era específico daquela lagarta. Quarenta e três tipos de borboletas e mariposas eram susceptíveis ao vírus. Descobrimos que o diretor do Instituto de Virologia, que supervisionava o projeto, também fazia parte do Comitê que estabelecera o protocolo de orientação da experiência.

Não pode haver melhor ilustração da necessidade de transparência e de responsabilidade em todos os estágios da pesquisa e desenvolvimento. Quando o público é mantido no escuro, é ruim para a ciência, pois ela perde a credibilidade ou torna-se um mito inatingível à população. Esta vira um alvo fácil de manipulação e de fé cega.

Há um papel claro para os legisladores ao se estabelecer os limites da nova biologia. Certamente é hora dos cientistas também exercerem seu julgamento ético. Isso começa com o reconhecimento de que a ciência não está isenta de valores. Como membros da sociedade e como os cérebros atrás da pesquisa e de suas aplicações técnicas, os cientistas devem aceitar que seu trabalho traz uma carga de responsabilidade. Algumas vezes, isto significa enfrentar decisões realmente difíceis. Mas o mundo é melhor percebido por meio do olho nu e não por meio da máquina de seqüenciar genes.
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Fonte: Resumo de artigo da revista Resurgence, nº 185. O autor, George Monbiot, escreve regularmente para “The Guardian” e trabalha na campanha “The Land is Ours”

 
 
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