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Em memória
de meu pai
Dan Stradfort
No dia 23 de março de 2002,
meu pai, William Stradford, sentado em sua cadeira, de repente
tombou a cabeça e morreu. Era o fim de uma vida infeliz.
Meu pai, morador de St. Louis, era o velho, sem dentes, que poderia
ser visto sentado no boteco da esquina, triste, perdido em seus
pensamentos, com a camisa suja de comida.
Ele era o homem que, no inverno, em uma esquina, vendia pretzels
de uma cesta, recebendo os trocadinhos com luvas desgastadas, se
protegendo do vento com sobretudo velho e um gorro de meia.
Meu pai era o homem que subia devagar no ônibus e demorava
muito para encontrar o troco ou puxar seu passe, contorcendo o
rosto por razões que vocês não iriam entender.
Era o homem que deixava os passageiros preocupados, pensando que
ele pudesse sentar-se ao lado deles.
Ficava com vergonha de mostrar este homem aos meus amigos quando
era mais jovem. E agora, ele não está mais aqui.
Mas, antes de 1958, papai era outra pessoa. Trabalhou como almoxarife
na empresa 3M durante nove anos e sabia onde estavam guardados
mais de 4.000 itens diferentes. Era veterano da 1ª Guerra
Mundial, quando recebeu duas estrelas de bronze.. Era um homem
alegre, bem-humorado e um pai brincalhão. Ocorreram, então,
o “colapso nervoso”, o tratamento por choque elétrico
e medicamentos agressivos.
Do colapso nervoso, poderia ter se recuperado. Mas dos tratamentos
por choque e dos medicamentos, não. Papai voltou do hospital
um homem aniquilado, apático e perdido em seus pensamentos
angustiados. Sua memória estava destruída.
Não podia mais trabalhar. Aos poucos, minha mãe foi
vendendo as ações da 3M que ele havia acumulado,
até que, finalmente, ficamos sem nada. Meu irmão
e minhas duas irmãs foram para um orfanato. Eu sobrevivi
em casa, ficando muitas vezes com parentes ou com quem pudesse
me acolher.
Papai era pentecostal, tinha princípios morais profundos.
Seu fracasso em cuidar da família o abalou profundamente.
Estava disposto a aceitar o trabalho mais medíocre e árduo,
por um salário mínimo, contanto que lhe permitisse
sustentar mulher e filhos.
Quando me tornei adulto e constituí minha própria
família, a imagem da morte de meu pai jamais me abandonou.
Que teria acontecido se não tivesse sido tratado por choque
ou medicado até cair no esquecimento?
Em 1998, motivado pela luta de meu pai, criei uma organização
sem fins lucrativos chamada “Safe Harbor”(Porto
Seguro), dedicada a orientar o público, os profissionais
da saúde e os órgãos governamentais sobre
o tratamento alternativo dos problemas mentais — sem medicamentos,
sem choque elétrico. Nosso site AlternativeMentalHealth.com rapidamente
tornou-se o mais extenso do mundo sobre esse assunto, com milhares
de visitantes por semana. Nós ouvimos ¾ e ajudamos ¾ um
número sem fim de pessoas que estão vivendo a vida
que meu pai levava e que procuram uma maneira de sair dela.
Crescendo ao lado de meu pai — escondendo minha vergonha
ao observar acessos de choro e contorções faciais
provocados pela medicação ou ao evitar os olhares
dos vizinhos — não podia imaginar que seria possível
aprender alguma coisa com ele ou que algo de bom pudesse vir de
sua vida.
Como eu estava errado! Eu te amo, papai. A paz esteja com você.
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