| |
As
consultas pré-natais
são freqüentemente fontes de angústia
Michel Odent
Todo mundo já ouviu falar do efeito placebo. O efeito nocebo é mais
ou menos o contrário. É o que acontece todas as vezes
que um profissional da saúde faz mais mal do que bem, atuando
sobre a imaginação, as crenças e, portanto,
sobre o estado emocional. Michel Odent explica como as gestantes
são atingidas por esse efeito.
O (possível) efeito nocebo das consultas pré-natais é um
assunto que assume grande importância nos tempos atuais.
No decorrer dos dez últimos anos, aprendemos que a saúde é construída,
em grande parte, durante a vida fetal. Em todas as áreas
da medicina foram publicados estudos que estabelecem a correlação
entre um estado de saúde na idade adulta, durante a adolescência
ou a infância, de um lado, e os fatos ocorridos com a mãe
durante a gravidez, do outro. E mais do que isso, os fisiologistas
têm hoje condições de explicar como certos
estados emocionais da gestante podem influir sobre o crescimento
e o desenvolvimento do bebê no útero.
Nesse contexto científico, é possível afirmar
que o bem-estar da gestante deveria prevalecer sobre qualquer outra
consideração. Esta deveria ser a prioridade em matéria
de saúde pública. Para o médico, o dever primordial
deveria ser proteger o estado emocional da gestante. Ora, a experiência
revela que as consultas pré-natais são, freqüentemente,
fontes de angústia — provocam muitas vezes um “efeito
nocebo”. Todos conhecemos gestantes cuja felicidade ficou
comprometida após uma consulta pré-natal.
Em Londres, muitas parteiras têm meu número de telefone
e o dão para as mulheres cuja angústia foi provocada
por uma consulta pré-natal. Estou, portanto, em uma situação
propícia para o estudo do efeito nocebo. Minha experiência
nessa área me ensinou que são quase sempre as mesmas
situações que provocam telefones urgentes. Assim,
percebi que um verdadeiro efeito nocebo é quase sempre causado
por um desconhecimento profundo da literatura médica. Eis
alguns exemplos comuns de telefonemas de mães angustiadas.
“Minha taxa de hemoglobina é 9: estou anêmica”.
Quando uma mulher tem uma taxa de hemoglobina de cerca de 9,0 ou 9,5 no fim
de sua gravidez, costumam lhe dizer — na maior parte das vezes erroneamente — que
ela está anêmica e precisa tomar suplementos de ferro. Ora, dizer
a uma gestante, perfeitamente saudável, que ela precisa tomar ferro
para corrigir desequilíbrios em seu organismo, é alterar, às
vezes profundamente, seu estado emocional. Essa atitude mostra bem um desconhecimento
da literatura médica. Um extenso estudo britânico, baseado nos
prontuários referentes ao parto de mais de 150.000 bebês, tinha
por objetivo avaliar as taxas ideais de hemoglobina durante a gravidez. A principal
conclusão desse estudo é que uma taxa da ordem de 9,0 ou 9,5
significa um bom prognóstico.
Em compensação, quando o
organismo materno responde mal à demanda do feto e da placenta e não
consegue reduzir sua taxa de hemoglobina a menos de 10,5, é mau sinal.
Os riscos de prematuridade, de peso insuficiente ao nascer ou de doenças
de final de gestação (tais como as pré-eclampsias) aumentam.
Embora esses dados tenham sido publicados em jornais conhecidos, publicados
no mundo inteiro, milhões de mulheres são declaradas anêmicas
e tomam ferro por ordem médica, sem que os testes específicos
para detectar uma carência de ferro e anemia tenham sido solicitados.
A incapacidade de interpretar os resultados de um teste tão difundido
como a medição da taxa de hemoglobina nas gestantes é um
fenômeno inquietante, porque é quase universal.
Esse fenômeno coletivo misterioso tem origem em um profundo
desconhecimento das funções da placenta. Um dos papéis
da placenta é manipular constantemente a fisiologia materna
em benefício do feto. A placenta “fala” ao organismo
materno por meio de hormônios. Ela desempenha o papel de
advogado do bebê. Assim, a placenta “pede” à mãe
para diluir seu sangue para torná-lo mais fluido. Isso faz
com que haja um aumento do volume sangüíneo, que pode
atingir 40 %. Isso explica que — ao medir, no sangue da gestante
a concentração de uma substância como a hemoglobina — a
primeira coisa que avaliamos é o processo de diluição,
ou seja, a atividade da placenta. É facilmente previsível
que essa concentração, que é da ordem de 12
a 13 (g/dl) fora da gravidez, diminuirá na mulher grávida
em função do grau de diluição do sangue.
Eis o que diz o médico experiente quando a taxa de hemoglobina é de
9,0 ou 9,5: “Boa notícia! A placenta está desempenhando
bem seu papel e seu sangue está diluído como manda
o figurino”.
“O médico me receitou um medicamento para abaixar a pressão
arterial”. Esse exemplo também é muito comum. Freqüentemente,
a placenta pede simplesmente à mãe para enviar mais sangue.
Então, o organismo materno aumenta sua pressão arterial. Os resultados
de uma série de estudos confirmam que um aumento isolado da pressão
arterial durante a gravidez acompanha as estatísticas positivas.
Infelizmente,
muitos médicos apresentam o simples aumento da pressão arterial
durante a gravidez como uma má notícia. Eles a consideram, às
vezes, até uma doença que precisa ser tratada com medicamentos.
Uma análise de 45 estudos publicados mostrou que os únicos efeitos
de um tratamento anti-hipertensivo durante a gravidez eram inibir o crescimento
do feto e aumentar o número de bebês de baixo peso. Muitos médicos
confundem a hipertensão isolada durante a gravidez com a pré-eclampsia.
Evidentemente, durante uma pré-eclampsia, há aumento da pressão
arterial. Entretanto, há também proteínas na urina e
um certo número de distúrbios metabólicos. Usando uma
comparação, podemos dizer que um tumor no cérebro provoca
dor de cabeça, mas uma dor de cabeça não significa que
o indivíduo tenha um tumor cerebral...
“O recurso sistemático a tecnologias sofisticadas é quase
sempre gerador de novas angústias e faz da gravidez um fenômeno
patológico”.
Diversos estudos poderiam mostrar a extensão deste fenômeno
inquietante e quase universal. Procurei simplesmente analisar duas
situações freqüentes e muito preocupantes.
Não consigo deixar de pensar do tempo em que a maternidade
de Pithiviers era a “maternidade que canta”. No final
de nossos grupos de canto — que terminavam por se transformar
muitas vezes em grupos de dança — as fisionomias estavam
radiantes. Fazíamos mais para o crescimento e desenvolvimento
dos bebês que vão nascer do que multiplicando as ecografias...
Michel Odent foi o primeiro a introduzir, no meio hospitalar, em
Pithiviers, na França, conceitos de vanguarda em relação
ao parto: salas de parto mobiliadas como no lar, piscina de parto,
música. Hoje ele está em Londres, onde fundou o Primal
Health Research Centre, que estuda as conseqüências
a longo prazo dos fatos ocorridos durante o período anterior
e posterior ao parto.
_____
Fonte: Vous et Votre Témoignage
Santé n° 8 – abril
de 2004. |
|