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Mil e
uma terapias
Philippe Mailhebiau
Denunciamos muitas vezes os abusos
de um sistema médico que se isenta de qualquer responsabilidade
e corrompido por um mercantilismo excessivo. O monopólio
médico sobre a saúde individual e coletiva é inadmissível
por princípio e um número cada vez maior de pessoas
questiona essa atitude dogmática, quase ditatorial.
Entre os próprios médicos surgem tensões,
conflitos e mágoas, principalmente perante aqueles que querem
conservar a nobreza dessa profissão e seguem uma conduta
moral e uma atividade profissional de acordo com a preocupação
essencial que deveria ter o médico — a saúde
e o alívio daqueles que o procuram. Muitos médicos
lutam para aplicar terapias naturais que requerem a participação
do doente. Esses médicos têm que enfrentar uma oposição
feroz por parte da maioria dos colegas. E, o que é pior,
enfrentam a indiferença do paciente, freqüentemente
tão ignorante e inconsciente que prefere um médico
capaz de drogá-lo — que não pedirá nenhuma
mudança em seu estilo de vida — ao médico que
procura levá-lo a assumir sua saúde, ajudando-o por
meios naturais, ma is eficientes e, sobretudo, mais duradouros.
Muitas vezes, os médicos naturopatas são perseguidos
por seus colegas com desdém e desprezo, como ignorantes,
que, além de tudo, traem a poderosa instituição
médica. A doença é muito lucrativa e o tratamento é prescrito
na medida em que o retorno financeiro se mostra superior ao da
manutenção da patologia. Assim, a honestidade é ridicularizada
e o ideal,inexistente.
Paralelamente, outros indivíduos sem escrúpulos fazem
rápidos estágios ou cursos, workshops ou seminários,
para — após alguns dias ou semanas de aprendizagem — ostentar
pomposamente um título em alguma terapia, cujo nome, muitas
vezes extravagante, deve servir de referência. Assim foram
surgindo, nas especialidades naturopáticas (cujo número
aumenta a cada dia) os vendedores de esperança, falsamente
místicos e medicamente incompetentes.
O público em busca de saúde, que não dispõe
de conhecimentos suficientes, nem de força moral para cuidar
de si mesmo, fica desorientado e não sabe mais a quem recorrer.
De um lado, uma medicina desumana e exploradora e, de outro, um
grupo extravagante que pretende curar todas as doenças “substituindo
as energias” — usando ambos de palavras melosas e reconfortantes,
que vão ao encontro de nosso desejo de não mudar
nosso estilo de vida. Parece que basta pagar uma pessoa com algum
título para que tudo melhore. No meio desses mercadores
do templo, os bons médicos e terapeutas — os autênticos
e sinceros profissionais da saúde — têm uma
vida bem difícil e sua honestidade é muitas vezes
submetida a duras provações.
Por isso recomendamos que você:
- desconfie de tudo que é fácil demais, daquilo
que não requer nenhum esforço pessoal;
- verifique a credibilidade e o valor do terapeuta, não
em função dos títulos que ostenta, mas do
testemunho das pessoas de quem ele tratou;
- observe o que move o terapeuta: existe uma grande diferença
entre ganhar sua vida corretamente e cobrar uma fortuna por cada
consulta de quinze minutos, seguida de uma receita polpuda para
remédios disponíveis no local (porque é mais
perto, é claro: que alma generosa!);
- acima de tudo, observe se aquele que quer tratá-lo
e lhe oferecer os elementos essenciais para uma vida mais equilibrada é um
exemplo daquilo que recomenda. O terapeuta, seja ele médico
ou não, deve ser um exemplo daquilo que prega, daquilo
que diz.
Médico naturopata ou terapeuta não-médico,
esse não é o problema.
Entre todos eles existem pessoas sérias e competentes, bem
como charlatães ou exploradores.
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Fonte: O autor era editor da revista francesa " Le Lien" 1990. |
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