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Integração da homeopatia
A experiência indiana

Jugal Kishore

A homeopatia chegou à Índia à época de Hahnemann e criou raízes profundas. Em pouco tempo, a Índia tornou-se o país com a maior concentração de médicos homeopatas, com a maior clientela. Naqueles tempos, a Índia contava com quatro sistemas de medicina: Ayurveda, Unani, Siddha (no sul) e a alopatia, recém-introduzida pelos colonizadores britânicos. Os sistemas indianos eram muito populares, gozando de elevado prestígio entre os soberanos e a elite do país, enquanto o sistema alopático começava a dominar os círculos governamentais graças à influência britânica.

A homeopatia e a medicina hindu

Um verso, escrito em sânscrito há muitos séculos, faz a seguinte pergunta: “Você não sabe que uma substância, que causa a doença, também pode curá-la quando preparada de maneira especial?” Sabe-se, desde tempos imemoriais, que “veneno cura veneno”. Esse é um dos preceitos da antiga medicina hindu (Ayurveda). Portanto, a homeopatia não foi considerada um sistema estrangeiro, mas foi aceita como forma de tratamento similar ao sistema Ayurveda, que já desenvolvera oito especialidades: clínica médica, pediatria, psicologia, otorrinolaringologia, cirurgia, toxicologia, geriatria e eugenia.

No sistema Ayurveda, os indianos estavam habituados a serem tratados como “pessoas” doentes, com constituição individual e reações individuais à doença: duas pessoas com tosse não receberiam o mesmo remédio — haveria diferença na medicação e até mesmo na alimentação recomendada. Como essa forma de tratamento é característica também da homeopatia, o povo não teve dúvidas em adotá-la.

Além do sistema Ayurveda, originado na Índia há cerca de três mil anos, havia o sistema de medicina Unani, introduzido na Índia por árabes e persas por volta do século XI. Desenvolvido na Grécia, as bases do Unani haviam sido estabelecidas por Hipócrates. Tanto Ayurveda como Unani se baseiam no conceito de distúrbios dos humores e ambos os sistemas, assim como a homeopatia, tratam o paciente como indivíduo doente. Os três sistemas adotam o enfoque integral.

As doses homeopáticas também foram aceitas sem dificuldades, pois certos medicamentos ayurvédicos eram ministrados em doses mínimas. Alguns preparados continham metais, como ouro e prata, e vários tipos de minerais.

Introdução da homeopatia

A homeopatia foi introduzida na Índia por volta de 1835 pelo Dr. John Martin Honigberger, que curou o Rei do Punjab. O rei ficou tão satisfeito com o tratamento que o nomeou responsável por um hospital do governo onde trabalhavam médicos em Ayurveda e Unani. Assim, a homeopatia ganhou reconhecimento oficial.

A medicina homeopática passou a ser praticada por leigos, principalmente pelos membros mais instruídos da sociedade de Bengala. Naquele estado, o Dr. Mohendra Lal Sarkar foi o primeiro médico a usar a homeopatia, apesar da oposição da Universidade de Calcutá, de cuja faculdade de medicina ele foi posteriormente expulso. O Dr. Sarkar foi também o primeiro a publicar um jornal sobre homeopatia, The Calcutta Journal of Medicine. Dois outros pioneiros, formados por uma faculdade de medicina homeopática nos Estados Unidos, fundaram a primeira faculdade de homeopatia da Índia, a Escola de Medicina Homeopática de Calcutá, em 1881. Essa instituição ainda existe e, atualmente, é administrada pelo governo estadual.

O governo federal da Índia reconheceu as medicinas indianas e a homeopatia instituindo o Conselho Central de Sistemas Indianos de Medicina em 1971 e o Conselho Central de Medicina Homeopática em 1973. O sistema alopático já havia sido reconhecido anteriormente pelo Conselho de Medicina da Índia. Todos os conselhos gozam da mesma autonomia e têm funções semelhantes em suas áreas de atividade. Os conselhos estabelecem padrões de ensino, mantêm um Registro Central de seus médicos e procuram assegurar elevados padrões de ensino e exame nas faculdades.

Formação em medicina homeopática

Desde o início, os alunos estudavam homeopatia em faculdades separadas, seguindo o exemplo das primeiras faculdades de medicina homeopática dos Estados Unidos. As faculdades que ensinavam os sistemas indianos já eram separadas — com exceção de algumas instituições que ministravam cursos integrados de medicina ayurvédica e alopática. Mais tarde, o Conselho Central de Medicina Indiana suspendeu os cursos integrados, ao constatar que os formandos praticavam somente a medicina alopática, ignorando a ayurvédica.

Os requisitos básicos para admissão em todas as faculdades de homeopatia são os mesmos requeridos pelas faculdades de medicina alopática. Existem 94 Faculdades de Medicina Homeopática. Em 52 delas, o curso tem duração de 5 anos e meio e estão afiliadas às Universidades. As 42 restantes ainda ministram cursos de apenas 4 anos, mas o governo está muito interessado em prolongá-los para assegurar a uniformidade. Isso permitirá integrar os médicos formados em homeopatia nos programas de saúde do país, onde é possível que venham a trabalhar, lado a lado, com médicos formados pelos outros sistemas. Foram criados cursos de pós-graduação financiados pelo governo, um curso de formação de professores e um outro para formandos em alopatia.

Atitude dos alopatas

De modo geral, a homeopatia é bem aceita pelos alopatas e na clínica particular há freqüente encaminhamento de casos. Às vezes, os próprios familiares de médicos alopatas recorrem à homeopatia. Em nível acadêmico, o preconceito contra a homeopatia desapareceu.

O número de postos de saúde ou ambulatórios homeopáticos gira em torno de 3.000. Existem 127 hospitais homeopáticos e 130 hospitais-escola. Existem 588 farmácias homeopáticas e 3.699 farmácias ayurvédicas. Por ocasião de grandes festividades religiosas, o governo instala postos de saúde temporários de homeopatia e de outros sistemas.

Os agentes de saúde dos povoados receberam kits contendo medicamentos importantes de todos os sistemas para atender as doenças comuns. Os kits contêm instruções precisas sobre a aplicação dos medicamentos a áreas específicas de enfermidade.

Pesquisa clínica

Iniciamos uma pesquisa para avaliar o uso de medicamentos homeopáticos contra doenças do trato respiratório superior e alergias (rinite, amigdalite, sinusite, otite média etc.) bem como doenças da pele. Os parâmetros foram fixados por alopatas otorrinolaringologistas e dermatologistas. Queríamos demonstrar que — para diversos problemas comuns — podemos usar medicamentos homeopáticos simples em vez de antibióticos ou outros medicamentos (potencialmente tóxicos). Os resultados foram considerados satisfatórios.

Em outra pesquisa, o Departamento de Odontologia usou arnica nas potências 200 e 1000 após a extração de dentes. Os resultados foram excelentes, pois os pacientes não precisaram de analgésicos, antibióticos ou anti-hemorrágicos.
O Conselho de Pesquisa Homeopática instalou 22 postos em regiões carentes. Os pesquisadores coletam dados sobre doenças, hábitos alimentares, costumes locais e crenças, dando especial atenção às ervas medicinais. Ervas e remédios caseiros são estudados para analisar suas propriedades homeopáticas.

A medicina homeopática obteve grande progresso na Índia com o estabelecimento de uma comissão e de um laboratório de Farmacopéia Homeopática. Esse laboratório foi o primeiro no gênero e é o maior do mundo. Foram publicados seis volumes contendo informação sobre mais de 700 medicamentos.

Pluralidade de sistemas — entrave ou bênção?

Observadores de outros países ficam confusos com a diversidade de sistemas de medicina que prevalece na Índia. Para o governo e os órgãos administrativos, é tarefa difícil satisfazer financeira e administrativamente a demanda dos diferentes sistemas. No entanto, uma análise mais profunda mostra que, na realidade, essa pluralidade é uma bênção.

Temos à nossa disposição um arsenal mais rico e mais amplo para aliviar ou evitar o sofrimento humano. Nenhum sistema médico é — ou pode ser — perfeito, pois a doença é muito complexa.

Hoje, a alopatia domina nas áreas urbanas. Entretanto, mesmo nas grandes cidades, as pessoas estão buscando a homeopatia por temerem os efeitos colaterais de certos medicamentos modernos. A homeopatia não é associada a efeitos colaterais. É comum as pessoas passarem de um sistema de medicina para outro na busca de alívio e cura. Estima-se que 75% da população tenham alguma vez procurado tanto alopatas quanto homeopatas.

Existe um vasto campo que está crescendo constantemente: trata-se das alergias que a alopatia não é capaz de curar, oferecendo apenas paliativos ou suprimindo os sintomas. Aqui, os outros sistemas de medicina — principalmente a homeopatia — conseguem oferecer melhores possibilidades de cura. Fontes confiáveis apontam alguns casos de câncer que foram curados por médicos ayurvedas e homeopatas. Pacientes com câncer voltam-se na fase terminal para a homeopatia em busca de alívio para a dor.

Nos casos de origem psicossomática, a homeopatia também exerce um papel muito importante na Índia. Da mesma forma, no caso de infecções — quando ocorrem recaídas constantes e o sistema imunológico do paciente ficou enfraquecido devido ao uso freqüente e indiscriminado de antibióticos — a homeopatia tem-se mostrado de grande utilidade. Em diversas dessas áreas, os médicos alopatas aceitam a contribuição da homeopatia e até encaminham seus pacientes aos homeopatas.

Segundo a Política Nacional de Saúde da Índia podemos afirmar:

“Este país possui ampla mão-de-obra na área da saúde, que inclui médicos de vários sistemas: Ayurveda, Unani, Siddha, Homeopatia, Yoga, Naturopatia etc. Até o momento, esses recursos não têm sido bem utilizados. Esses médicos são muito respeitados e, conseqüentemente, exercem considerável influência sobre as práticas e crenças na área da saúde. É necessário tomar medidas, permitindo que cada um desses sistemas de medicina e de cuidados de saúde se desenvolva de acordo com seu dom, integrando os sistemas indianos, a homeopatia e a alopatia em um sistema global.”

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O Dr. Kishore é presidente do Conselho Central de Homeopatia da Índia e da Liga de Medicina Homeopática da Ásia, apresentou esta palestra no Brasil em 1991

Veja também www.hsf-france.com
(Homeopathies Sans Frontières)

 

 

 

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