|
|
Por que o Veganismo?
Eva Batt
O veganismo sempre ressaltou a necessidade de uma
alimentação saudável que respeite os animais. Enfatiza a importância de preservar
o solo e o uso correto da terra, para que futuras gerações não a encontrem
com erosão, queimada, sem os minerais necessários para uma vida saudável.
Os veganos confiam em métodos naturais (alimentação pura, ar fresco, sol,
exercício etc.) ao invés de vacinas e medicamentos para manter corpo e
mente saudáveis.
O uso de agrotóxicos e adubos químicos vai contra o
princípio do veganismo e a agricultura vegana provou que são desnecessários
quando o equilíbrio correto do solo for estabelecido. Frutas e verduras
cultivadas com métodos veganos podem ser tão grandes e bonitas quanto
aquelas cultivadas sob qualquer outro método. (Obs.: "vegano" não
é o mesmo que “orgânico”, que pode utilizar sangue, osso, casco moído,
chifre moído e outros subprodutos animais).
Na visão vegana, também a contaminação da água com esgoto,
resíduos industriais ou adição de flúor é contrária aos interesses da
comunidade.
Devido à sua fé em Ahimsa
(que em sânscrito significa: não matar, não machucar, energia inofensiva),
os veganos tendem ao pacifismo e opõem-se a todos os tipos de atividade
agressiva. Entretanto, o veganismo não tem ligação com nenhum partido
nacional ou internacional. Os veganos podem ser profundamente religiosos,
talvez cristãos devotos ou discípulos de uma das várias outras religiões
neste mundo. Porém, isso não é requisito do veganismo, que é um estilo de
vida preocupado em viver sem machucar os outros.
Há vários caminhos para o veganismo e muitas teorias a seu
respeito, mas o veganismo é somente uma única coisa — um modo de viver que
evita a exploração, seja ela humana, animal ou do solo do qual dependemos
para nossa existência. Alguns são inicialmente atraídos ao veganismo porque
desejam melhorar ou recuperar sua saúde; outros estão mais interessados no
aspecto econômico, que é de grande importância para todos. Poucos
não-vegetarianos avaliam o fato de que muito mais alimentos vegetais do que
os alimentos animais podem ser produzidos em uma área igual e no mesmo
espaço de tempo adotado de forma geral. O veganismo poderia livrar o ser
humano da criação animal com toda a sua crueldade e muitas terras férteis
seriam liberadas para ampla produção de alimentos destinados diretamente ao
consumo h umano.
O maior número de veganos, porém, é daqueles que foram
motivados por compaixão a adotar este modo de vida — sem machucar. A
maioria foi criada comendo bastante carne, ovos, leite e peixe, porém
sentindo, há algum tempo, que esta talvez não fosse a melhor maneira de
viver. Mais tarde, talvez uma visita a um mercado de gado ou vendo bezerros
recém-nascidos levados ao matadouro (nascerem e serem mortos para que as
pessoas possam beber o leite que a Natureza forneceu aos filhotes) levou à
decisão de não ser parte disso.
Muitos perguntam porque temos de “ir tão longe” e dizem que
o lacto-vegetarianismo, por enquanto, é suficiente. Infelizmente, poucos
vegetarianos, em nossa experiência, realmente se dão conta do nível atual
de crueldade — não por falta de sentimento, mas por falta de interesse e
compreensão. Diferente dos veganos, um grande número de vegetarianos estão
principalmente preocupados com a saúde e aceitam o abate de animais na
produção de carne, couro, queijo etc. Em nossa opinião, não importa para o
animal inocente se será abatido para fornecer comida, medicamentos, roupa,
esporte, objetos de luxo como ornamentos de marfim, bolsas de pele de
jacaré ou um perfume exótico.
A morte súbita no auge da vida, com freqüência, também
significa a morte lenta para os filhotes. Às vezes, o filhote (ou sua pele)
é visado pelo homem. O que a foca-mãe sente quando vê os restos sangrentos
de seu filhote — golpeado e rapidamente esfolado — provavelmente não
é diferente da angústia da vaca doméstica ao perder seu bezerro
recém-nascido.
A maioria das pessoas, ao iniciar uma alimentação
lacto-vegetariana, aumenta seu consumo de laticíneos e ovos; isso significa
que qualquer alívio do sofrimento para os animais existe mais na esperança
do que no fato. É surpreendente ficar sabendo quantos vegetarianos não se
dão conta de que o coalho utilizado para fermentar o queijo é obtido do
estômago de um bezerro recém-abatido. Esses queijos, obviamente, não são
lacto-vegetarianos e sentimos que essas contradições deveriam ser bem mais
divulgadas. Se fôssemos comparar graus de crueldade, ficaria claro que, de
todos os “animais para alimentos”, a vaca sofre muito mais do que o gado de
corte.
Durante toda sua vida, esse animal de olhos bondosos,
dócil, é considerado simplesmente como uma máquina leiteira. Ela é
"estimulada" por hormônios, tratada com antibióticos e outros
medicamentos e ainda tem de sofrer os horrores do matadouro quando, por
fim, se torna improdutiva.
Os produtos como biscoitos, bolos, massas prontas, pastéis,
pudins, sopas enlatados etc., são suspeitos. Provavelmente contêm: manteiga,
leite, mel, queijo, gorduras animais ou ovos. Além disso, do ponto de vista
nutricional, são inferiores aos alimentos frescos, porque foram
super-cozidos ou processados de alguma forma e porque provavelmente contêm
alguns dos 800 aditivos usados na alimentação, como corantes, adoçantes,
estabilizantes, conservantes, aromatizantes etc. Um conselho útil para
iniciantes é: ”Se não
pode comê-lo cru, deixe-o de lado!” Por vários motivos, uma
pessoa talvez não possa mudar da noite para o dia para uma alimentação
inteiramente crua. Porém, comer bastante alimentos crus é necessário para a
saúde.
Oferecer, de vez em quando, uma boa sopa caseira, verduras
cozidas de forma tradicional, pão integral ou batatas assadas com casca,
vai acrescentar variedade às saladas verdes, frutas frescas, nozes e grãos
(estes últimos facilmente germinados com resultados excelentes), a base da
boa alimentação vegana.
Mas o veganismo não está somente preocupado com a alimentação.
Os veganos deploram o abatimento ou a exploração de qualquer animal,
qualquer que seja o motivo:
COMIDA — Carne, peixe, aves,
ovos, leite, manteiga, queijo, creme, toicinho, mel e todos os produtos que
contenham qualquer um destes ingredientes.
ROUPA —
Lã, couro, seda, pele de répteis etc.
ORNAMENTO — Peles, penas, pérolas, marfim
etc.
COSMÉTICOS — Sabonetes e cremes que contenham
óleos ou gorduras animais e os ingredientes de perfumes, obtidos de animais
em condições muito cruéis.
PRODUTOS DOMÉSTICOS — Tapetes ou
carpetes de pele e lã, cobertores de lã, travesseiros de penas, escovas e
vassouras de pêlo, óleos, graxas, polidores etc. que contenham gorduras
animais.
ESPORTE — Caça, corrida, tiro, pesca etc.
ENTRETENIMENTO — Circos e
todos atos que incluem a apresentação de animais ou pássaros; zoológicos
onde animais livres são aprisionados. Parques nacionais e reservas naturais
são opções muito melhores.
MEDICAMENTOS — Vacinas, soros etc. produzidos
usando animais, sem esquecer que milhares deles são utilizados em
experiências para “testar” todo tipo de medicamentos e cosméticos.
Isto é uma lista enorme que deve mostrar o quanto nos
acostumamos a usar substâncias animais e a explorar todos os pobres animais
dos quais o homem pode extrair lucro.
Além dos efeitos imediatos, os veganos consideram esse
estilo de vida um dever para futuras gerações. Vai levar muito tempo, no
atual ritmo de progresso, para desfazer o resultado de erros passados — se
é que isso é possível! Entretanto, quaisquer que sejam nossas ações, serão
nossos herdeiros, mais do que nós, que colherão os resultados, bons ou
ruins, daquilo que fazemos hoje, amanhã e depois, até deixar para eles — o
quê? Um deserto, a destruição ou um jardim abundante?
A decisão é sua e é minha.
_____
Fonte: O livro "Here´s Harmlessness — an Anthology of Ahimsa",
da American Vegan Society, 1993
|
|