| |
Lições
para a humanidade
Leila Chahid
A realidade é muito dura. No entanto acredito
que precisamos acompanhar todos aqueles que, na Palestina e em
Israel, lutam diariamente pela paz, para conseguir reter o nosso
amor ao próximo e
para perceber que, apesar da profunda dor, também há muita
força, muito potencial, muita confiança em um futuro
comum.
Quero falar da população civil, pois se fala demais
dos atores políticos que estão diariamente nas manchetes
de todas as revistas. Os verdadeiros heróis da Palestina
estão no povo palestino. A população civil
da Palestina, os homens e as mulheres, vivenciaram a desintegração
de seu país, no ano de 1948, com imenso trauma.
Apesar das
famílias estarem espalhadas — algumas vivendo na Arábia
Saudita, outras na Austrália ou na Europa e tantas outras
viveram sob ocupação militar, ocorreu um processo
de aprendizado. Apesar da guerra, apesar da ocupação,
apesar do exílio, aprendeu-se a reconhecer o valor do outro.
Mulheres, às vezes analfabetas ou com pouquíssima
instrução, tem filhos condenados ou sendo torturados
nas prisões, sem meios para se defender — a não
ser pela coragem de advogadas e advogados israelenses que os defendem
(são tribunais militares, onde advogados palestinos não
podem ou não querem aceitar processos...). O encontro das
mães com esses advogados e advogadas resume milhares de
discursos sobre o respeito para com o próximo, sobre a possibilidade
de existir uma base comum entre palestinos e israelenses — muito
além das suas diferenças nacionais.
Existe real confiança na força não militar.
Eu lhes asseguro que a maior resistência palestina não
vem daqueles com metralhadoras Kalaschnikow ou daqueles que se
tornam kamikazes. Vem daqueles que continuam vestindo as filhas
com aventais listrados e colocando fitas grandes em seus cabelos,
antes de mandá-las para a escola, desviando das barreiras.
Vem também dos professores que, dia após dia, atravessam
a pé os vales, para continuar ensinando os estudantes nas
universidades.
Imaginem que, mesmo durante a situação de ocupação,
como temos atualmente — todas as cidades estão ocupadas — todas
as escolas, colégios e universidades continuam funcionando.
Também vem dos médicos que, após os atentados
e bombardeios, imediatamente socorrem os feridos. Esta é a
maior força de resistência da sociedade palestina.
Quero lhes dizer como estou comovida de poder estar de baixo deste
carvalho, pois existe um carvalho de 1500 anos no terreno dos meus
avós, na Palestina. Esta árvore está prestes
a morrer. Peço à comunidade mundial que abrace os
palestinos, assim como os israelenses que estão dispostos
a permitir que o carvalho torne a viver.
_____
Fonte: O artigo foi extraído
do discurso feito pela autora (representante da OLP na França)
no colóquio ‘Dar
Alma à Globalização’ em Fez, no Marrocos. |
|